Correio do Minho

Braga, quinta-feira

'Partir e voltar', por Isa Meireles

O Estado da União

Conta o Leitor

2012-07-13 às 06h00

Escritor

Existem mil chaves pousadas sobre a tua mesinha de cabeceira, mas nunca as vês. Sais de manhã, a correr, para o café. Não te importas com quem te vê, ou como te vestes. És tu. Mais nada. Ficas lá o tempo todo, de jornal na mão, com mil isqueiros sobre a mesa. Só sais durante as horas de almoço e jantar, vais a casa a correr, nem te estreias no sofá, voltas para o recanto que tanto estimas, na mesa debaixo da televisão.
   
Inauguras os teus lábios com os estupefacientes que estão sobre o balcão. Bebes o álcool como quem bebe água e de nada mais queres saber. Eu, daqui, observo-te. Estou cá fora, apenas com a minha poesia e o meu jazz tocando sobre os meus ouvidos. Sorrio ironicamente dentro de mim. Se te mostrasse o que leio, tu nada sabias. E de repente, corres para o carro, estragas-me os pensamentos e estacionas no primeiro lugar que te dão, mesmo em frente ao café. Não sais daqui. Não te vagueias pelo mundo de óculos de sol; Não corres por de trás dos pântanos; Não ouves música ao domingo de manhã. Não sais daqui. Mas, eu, também não posso falar contigo. A timidez sucumbe-me a pele: E corrompe-me de tal maneira, que temo, ou chego a temer, falar contigo. Talvez nos encontremos em Paris, debaixo da Torre Eiffel. Ainda tenho esperança em ti, mesmo sem te conhecer, quem sabe, vás um dia pelo mundo e saias do café!

Chego a casa e pouso os livros, sento-me na minha cadeira de veludo vermelha, abro as cortinas e questiono-me: O que posso fazer por ti? Apago as luzes, e julgo-te, sem te chegar a julgar, porque te defendo. E defendo-te, porque tento encontrar explicações.
   
Porque não vais para casa? Ou passear? Sabias que tens arqueologia e história na tua cidade? Sabias que em tua casa tens mais de dez obras poéticas? Sim, mais de dez. Mais das dez horas que passas sentado naquela mesa, do mesmo café, todos os dias. Não te cansas? Eu, que odeio e desprezo rotinas, cansava-me. Cansava-me porque me incomodaria o cheiro das mesmas paredes todos os dias; As cores; O sabor amargo de todas aquelas bebidas e o torrado do café sobre a minha boca ainda tecida a palavras. Tu não te cansas. Não te cansas de acordar e não fazer a cama, de sair sem desligar a luz, de te entregares sem saber quem está do outro lado.
   
Entre ti e o mundo, há uma porta fechada. Não a abres, mas como para ti a vida é feita de facilítismos, comodismos, rotinas, vais pelo vizinho. Pensas que não tens as chaves, mas não a procuras, não tentas abrir, ou será que nem pensas que a porta se pode abrir? Entre ti e o mundo, há uma porta fechada. E continuará a haver, até que um dia tu deixes de ter um cadeado no teu coração. Até ao dia em que acordes e penses que precisas de mudar. Até ao dia em que...
   
É domingo! Passei a noite a pensar em explicações variadas para seres assim. O jazz toca da pequena grafonola, os vizinhos recordam uma juventude já perdida e dormem até à hora do almoço. Também eu já fui assim, outrora. Hoje, já não. A vida fez com que o sono não me impedisse de analisar cada gravura. E continuo a analisar-te. Com um sumo de laranja azedo que me faz acordar a alma, despertar a mente. Se calhar, vou ao café. Àquele café em que tu páras, todas as manhãs, há imensos anos atrás. Troco o jazz pelo teu estudo, minuciosamente detalhado, aprofundado, perdido nos subúrbios da noite.
   
Não estás cá. O teu carro tem o lugar reservado, ou seja, é domingo e está vazio. Tão vazio como as palmas da minha mão neste momento, que se estendem nesta chuva miudinha que me corrói o cabelo. Volto para casa, sento-me no sofá e pergunto-me, questiono-me, afincadamente, sobre o teu paradeiro. Será que foi desta que, quando acordaste, olhaste a mesinha de cabeceira? Deixei-te lá todas as chaves. Todas as chaves que te podiam dar o entusiasmo juvenil da abertura daquela porta. Da porta onde nos guardaste. Onde te guardaste e te deixaste perder.
   
Esqueceste-te, mas não te censuro, as rotinas são fortes e levam-nos a paciência que não temos, facilitando-nos o percurso da vida, mas esqueceste-te que os vizinhos não sabem dos segredos que deixaste no baú, dos sonhos que tinhas, das promessas que fizeste nos papiros queimados a café e dos beijos que deste à lua do outro lado do mundo nas noites de solidão.
   
Se calhar, a vida é só isto: Um vinil de jazz a tocar, perderes-te e encontrares-te, morreres por dentro e ressuscitar. Fechares o coração, e ires pelo vizinho, para não teres de o abrir outra vez.

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