Correio do Minho

Braga, sábado

Pena Província, de Maria Costa

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2010-08-12 às 06h00

Escritor

Chegaram as férias e com elas os nossos passeios pelos caminhos da aldeia. A meta de todos os anos era subir a serra do Carvalho d’Este. Lá no alto, bem no cimo, fica Pena Província, o nosso destino. Quem nunca lá foi não pode imaginar a sensação de liberdade que se sente ao desfrutar de tão bela paisagem. Em cima dos penedos saboreamos um lanche, previamente por nós organizado, e que tão bem nos soube depois do esforço que desenvolvemos durante a caminhada. Além dos pães com queijo e marmelada, havia também muitas peras que saboreadas juntamente com o chamado doce de romaria, era um manjar dos deuses.
Os penedos de Pena Província contemplados da nossa casa de férias, dá-nos a sensação de ser já ali, ao virar da esquina. No entanto para lá chegarmos gastávamos bem entre uma hora e hora e meia. Era uma alegria. Pais, tios, filhos e sobrinhos seguidos pelo Faruk, um pastor alemão, saltávamos muros, desviando-nos do tojo, das silvas e dos insectos que nos perseguiam, assustando-nos com o restolhar das cobras e dos sardões por entre os fetos e correndo atrás dos coelhos e das borboletas. Quando chegávamos ao cimo do monte sentíamo-nos satisfeitos e radiantes por termos conseguido o nosso objectivo, apesar dos arranhões nas pernas, dos joelhos esfolados e de algumas unhas partidas.
De cima dos penedos, olhávamos à volta e víamos o Monte de Lanhoso, a minha casa no fundo, o monte da Ganidoura sobranceiro à vila, o Castelo de Lanhoso que parecia tão próximo de nós, o monte de Penafiel com a capelinha de São Mamede lá no alto como que a vigiar-nos, o monte de Santo Tirso com mais de mil metros de ruínas de muralhas e outros vestígios, bem como uma cadeira escavada no penedo mais alto do monte. Ao longe ainda se avista as Serras da Cabreira, do Gerês, da Peneda e para oeste o Monte dos Picos e a aldeia do Carvalho d’Este. É entre o monte dos Picos e a Serra do Carvalho que fica situada a nascente do Rio Este, que serra abaixo serpenteia por entre os campos, atravessa a cidade de Braga e vai desaguar no Rio Ave, junto a Vila do Conde.
A ribeira de Riamontes, mais para sul, passa na minha aldeia e vai desaguar no ribeiro de Pontido, que atravessa a vila e vão lançar as suas águas no rio Ave.
Vê-se também o Rio Cávado, ao fundo, que vai correndo por entre as árvores no seu leito, que a certas horas do dia, quando o sol nele se reflecte, mais parece um rio de prata, formando o vale do Cávado. Lá ao longe vê-se o mar, onde o rio lança as suas águas que em dias límpidos nos encanta, dando-nos a sensação que a linha do horizonte está num plano mais alto.
De repente lembro-me dos meus conterrâneos, que outrora, combateram neste lugar de Pena Província. Imagino, como teria sido naquele tempo as tropas invasoras, depois de atravessarem Trás-os-Montes, entram no Minho, saqueando, destruindo e, pior que isso, dilacerando famílias e famílias.
Depois do Monte da Ganidoura, no alto da Matança, como lhe chamaram, houve um combate muito renhido, onde morreram muitos camponeses, que armados de chuços e roçadouras, faziam frente às armas dos invasores. Apesar dos esforços de um Capitão de Fonte Arcada, tentando defender e auxiliar os seus conterrâneos com uma peça de artilharia, tornou-se infrutífero o seu acto heróico, tendo infligido grandes baixas aos invasores. O solo, neste monte, ficou juncado de cadáveres.
O alto do Monte de Pena Província é o ponto fulcral onde a leal Legião Lusitana, comandada pelo inglês Barão de Eben e vários populares combateram, com denodo, as tropas invasoras e estas sofreram também pesadas baixas, entre elas a do general francês Courvesieu.
O general Nicolau Soult quando chegou ao alto de Pena Província, admirou a beleza da paisagem e exclamou «e deu Deus estas maravilhas a estes bárbaros». Mais tarde desceu a Geraz do Minho e aboletou-se no Solar de Berredo.
Oitocentos anos antes, neste mesmo solar, viveu Maria Pais da Ribeira, “a Ribeirinha”. O nosso Rei D. Sancho I, apaixonado pela sua beleza, passou a ser um visitante assíduo. Aliás nestas aldeias minhotas, segundo rezam as crónicas, sempre houve lindas mulheres, sendo uma delas a Maria Moniz. Mas principalmente a Ribeirinha era uma senhora de rara beleza e que não passou despercebida ao nosso rei.
Já anteriormente o rei de Leão, Bermudo III, frequentava estas freguesias, dando largas aos seus devaneios rodeado de belas companhias femininas.
O Solar de Berredo pertenceu ao Conde de Cabreira e Ribeira, avô de Maria Moniz e Martim Moniz (o que morreu nas portas do Castelo de Lisboa), que nasceram neste solar. O Conde de Cabreira e Ribeira veio de França na companhia do amigo e companheiro, o Conde D. Henrique.
Tudo isto eu recordei aos meus divertidos familiares, que não só estavam já cansados da caminhada, como também começavam a ver a sua paciência chegar ao limite. Assim sendo, em coro me disseram:
_ Basta de história, sempre o mesmo é de mais. Muda de disco!
A juventude é assim mesmo. Nas suas cabecinhas teria ficado alguma coisa? Talvez, mas férias, são férias, e nada de história.
O sol já ia alto e o calor apertava, quando resolvemos regressar à quinta. A descida foi mais rápida e depressa avistamos os telhados da casa.

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