Correio do Minho

Braga,

Pensar como um cientista

O silêncio não erra

Ideias

2016-12-09 às 06h00

Margarida Proença

Um dos temas que mereceu mais destaque esta semana foi a educação, ou mais exatamente os resultados obtidos por Portugal no PISA, um teste internacional desenvolvido pela OCDE para avaliar os resultados de aprendizagem em ciências, matemática e leitura em jovens de 15 anos. O objetivo final do teste é permitir a comparabilidade de sistemas educativos. O teste é aplicado de três em três anos, desde 2000, e na ultima versão abrangeu cerca de 72 países.

Os objetivos específicos do PISA vão sendo alterados; em 2015, foi considerado mais importante avaliar a competência revelada pelos jovens em ciência, não apenas os conhecimentos que detêm, mas também as atitudes que revelam para com a ciência. Tal como vem referido nas conclusões divulgadas pela OCDE, será essencial “pensar como um cientista” no século XXI, independentemente das funções que se venham a desempenhar.

Os resultados são importantes, porque na verdade permitem aos decisores públicos ajustar as políticas que vão procurando implementar a longo prazo.
A maior parte dos países manteve a trajetória no que se refere ao desempenho em ciência, pelos menos desde 2006. Singapura, Japão, Estónia, Finlândia e Canadá mantêm as posições cimeiras. Veja-se o caso de Singapura - enquanto 8% dos estudantes nos países da OCDE revelam um desempenho muito elevado, indicando que são capazes de aplicar os seus conhecimentos de forma criativa e autónoma a uma variedade de situações, em Singapura são 24%, o triplo. É de facto notável.

Portugal é identificado como um caso que revela uma trajetória claramente positiva; em 2015 apresentava valores médios que o colocavam em 24 º lugar, melhor posicionado que a Suécia (25º), a França (2º) , a Espanha (29º) ou os Estados Unidos (31º), entre muitos outros. Habituados a olhar para o país de forma pessimista, é bom que se vão conhecendo e reconhecendo as muitas razões que justificam de facto o otimismo.

No entanto deve ter-se em conta que as análises em educação devem ser conduzidas sempre com muito cuidado, e que o “pensar como um cientista” obriga a uma cuidada observação dos factos e a colocar hipóteses alternativas, de forma critica e consistente, para ver quais se adaptam melhor aos mesmos. Olhar para estes resultados, e atribuí-los a um impacto imediato quase de qualquer alteração de política educativa não deve ser feito.

Os conhecimentos que um jovem de 15 anos revela no momento em que é testado indiciam um conjunto complexo de fatores. A dificuldade de estabelecer uma relação de causa-efeito tem a ver com questões como nível educacional da família, rendimentos, níveis médios de nutrição, saúde, cultura, mas também questões institucionais, qualidade da educação, etc.

Quando se fala em literacia científica, não se trata apenas dos conhecimentos dos estudantes, mas também da atitude que estes manifestam para com a ciência, e da forma como tal lhes permite tomar decisões e fazerem, portanto, escolhas informadas. Ainda que com 15 anos, seguramente antes disso, trata-se de os jovens desenvolverem capacidades que lhes permitam explicar os fenómenos de forma científica, avaliar argumentos, procurar explicações alternativas, revelando uma atitude diferente também para com a tecnologia.

Olhando para os resultados obtidos por Portugal desde 2006, expressos no gráfico aqui apresentado, é clara uma trajetória crescente desde 2006, provavelmente anterior. É o resultado, ao longo de décadas, do investimento em educação que permitiu uma valoração diferente da mesma na nossa cultura.

Dos largos milhares de currículos que já analisei é curioso ver que acima dos 50-55 anos, não é de todo vulgar encontrar quem tenha procurado obter de forma consistente um reforço, ou atualização de conhecimentos, ao longo da sua vida profissional; supondo alguém com uma licenciatura obtida há 30 anos, fez quanto muito algumas ações de formação profissional muito pontuais. O comportamento é diverso abaixo dos 40-45 anos. A exigência de uma formação complementar que responda aos requisitos colocados em contexto profissional é cada vez mais vulgar. Naturalmente tal acaba por se refletir nos jovens.

Em Portugal gostamos de discutir e de nos colocarmos numa posição “do contra” por princípio. Questionamos as exigências de inglês nos primeiros anos do processo educativo, da necessidade das crianças terem um computador e habituarem-se a interagir com a tecnologia também na procura de informações, das vantagens de ter professores com níveis formativos mais exigentes e rigorosos, de processos e sistemas mais rigorosos de governação das escolas, das vantagens do maior apoio a estudantes com maiores dificuldades de aprendizagem, da maior exigência e rigor no processo educativo, por aí fora. Os resultados revelados refletem seguramente as políticas educativas e a alteração económica e cultural do país nas ultimas décadas. Ainda bem. Ainda há muito caminho a fazer.

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