Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Perdoa-me Leandro

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Escreve quem sabe

2010-03-13 às 06h00

Fernando Viana

Esta crónica aborda habitualmente temas alinhados com o Direito em geral e o do Consumo em particular, a Resolução Alternativa de Litígios e a Justiça.

Hoje, abro uma excepção (ou não, tudo dependendo da perspectiva do leitor).
Enquanto professor que fui, pai e adulto que sou, quero pedir perdão ao pequeno jovem de Mirandela que há poucos dias, mergulhou nas águas do Tua, num acto de grande desespero, já que ninguém soube ou quis parar a violência de que era alvo quotidianamente na Escola. Para que tenha tomado aquela derradeira e fatal atitude, preferindo enfrentar as águas geladas e revoltas de um rio em cheia, é porque já não acreditava no mundo dos adultos, de que faço parte, gente crescida e responsável que deveria assegurar a sua protecção.

Perdoa-me Leandro se puderes, tu que tinhas certamente sonhos de criança, gostavas de brincar e de dançar e eu não deixei que se concretizassem, antes te obriguei a viver em pesadelo constante.

Perdoa-me Leandro porque no dia seguinte a teres desaparecido, abri as portas da Escola que tu frequentavas, como que a fingir que nada de grave se tinha passado.
Criei esta sociedade onde apregoei bem alto direitos e Declarações de Direitos das Crianças e lá escrevi que deverias ser protegido contra todas as formas de crueldade e abandono e não te protegi.

Também nessa Declaração disse que deverias ser educado num espírito de compreensão, tolerância, amizade, paz e fraternidade e o que te proporcionei foi desinteresse, sevícias e violência física e psicológica.

Perdoa-me Leandro, se puderes, por ter criado este mundo louco, apressado e não ter reparado no pedido de ajuda que estava estampado no teu olhar dorido.
Perdoa-me Leandro, porque dois dias depois do teu desaparecimento fiz uma greve que fechou muitas escolas por esse país fora, não por tua causa, mas para salvaguarda dos meus direitos, eu que nunca me importei com os teus.

Perdoa-me Leandro porque agora, vou instaurar inquéritos, a que se seguirão processos, que talvez um dia sejam encerrados. Inquéritos esses e processos aqueloutros que apontarão (talvez) erros, culpados, mas que na poeira do tempo em que verão a luz do dia, pouco te importarão a ti.

O teu pequeno corpo não mais foi visto Leandro, mas isso se calhar é porque não queres que mais mão nenhuma te toque.
Perdoa-me Leandro, se puderes…, mas de uma coisa podes ter a certeza, o grito que lançaste cá para fora quando caíste ao rio ainda ecoa e à noite, às vezes acordamos e ficamos a ouvi-lo e depois não conseguimos voltar a adormecer.

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