Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Peripécias do quotidiano

O primeiro Homem era português

Conta o Leitor

2021-08-20 às 06h00

Escritor Escritor

Cecília Almendra

Há imensas situações bizarras que nos vão acontecendo ao longo da vida e as quais servem para nos rirmos um dia mais tarde. Quando recordamos, embora tenha passado muito tempo, parece-nos que foi ontem. As emoções vivenciadas nessas peripécias levam-nos ao limite da racionalidade dos factos e marcam-nos como um carimbo marca o papel.
Talvez tenha sido o primeiro trabalho, como promotora numa superfície comercial, onde tinha de vender uma palete cheia de caixas de vinho do porto. É verdade que sabia zero nessa matéria! Com a auto estima em alta, acreditei que dava conta do recado e assim foi. No primeiro dia lá estava eu junto ao produto, feito “estátua” e com um sorriso aberto de orelha a orelha, de forma a colocar-me confortável para aquele desafio. Começavam a chegar os primeiros clientes e à frente um senhor coloca-se a jeito para lhe sugerir a dita caixinha de vinho. 
“Bom dia! Quer experimentar este delicioso vinho do porto?” O senhor sorriu e continuou sem dizer uma palavra. Ups… Podia responder, pensei, pouco tempo depois esse mesmo senhor “arma um barraco” com um funcionário do estabelecimento. Aos berros numa cena nunca vista por mim, fincava os pés no chão como uma criança quando faz birras. Foi constrangedor. Toda a superfície comercial ficou imobilizada ao ver a “vítima” de cabeça baixa abandonando do  seu posto de serviço. Logo que pude perguntei o porquê desse alvoroço todo, foi quando me disseram que o empregado falou baixo e o patrão não ouviu o cumprimento de bons dias e ficou em transe. 
Outra situação bizarra foi quando respondi a um anúncio do jornal onde pediam uma secretária para uma empresa que iria abrir em breve. Não hesitei e respondi logo! Entretanto, nunca mais pensei no assunto até ser chamada para a entrevista, fiquei surpreendida! Afinal, não tinha a mais pequena ideia nem experiência de escritório. Quando  chega  a minha vez, entro sorridente e sento-me na secretária para o questionário feito pelo próprio empregador. 
“Como é? Tem experiência com a máquina de escrever? Fazemos imensos contratos em triplicado e precisamos de alguém que seja despachado.”
Nessa época era assim…
No que respondi: “Sei, embora esteja um pouco destreinada sinto-me apta”, dando logo de seguida um exemplo: “é como andar de bicicleta, nunca mais se esquece.”
- “Preciso de alguém que domine a língua Inglesa, fala e escreve?”
- “Bem, o “hábito faz o monge”! Penso que chego lá.”
Mais algumas perguntas e despediu-se dizendo que ia continuar com as entrevistas e caso fosse escolhida comunicava. Segui com a minha vida e esqueci completamente aquela entrevista até ao dia em que sou surpreendida com o telefonema a confirmar que o lugar era meu e para me apresentar de imediato. 
Primeiro dia de trabalho. Só tive tempo de pousar a minha carteira e logo foi-me entregue o meu primeiro serviço. “Trate-me deste Leasing, digo-lhe onde deve ir.”
Ao sair da porta comecei de imediato a rezar…como posso tratar de algo sem fazer a mais pequena ideia do que se trata?! Não havia telemóveis! 
Que vergonha pensei…e assim fui quase desfalecendo até ao dito lugar e quando lá chego disse: Venho tratar do Leasing do Sr “tal”, no que a outra pessoa me responde: Está pronto! Nem queria acreditar na minha sorte.
Quanto ao resto, fui-me safando e acabei por me inteirar e já ninguém fazia nada no escritório sem o meu aval.
O primeiro contrato de venda levou algum tempo até ficar pronto com muito papel no cesto, pois em triplicado uma virgula mal colocada também passava em triplicado.
Quando o meu Inglês fluente foi colocado à prova, aí tenho essa imagem na cabeça como uma das melhores anedotas de que fui capaz de me envolver. Tinha de receber uns senhores acabados de chegar de Inglaterra e pedir que aguardassem uns minutinhos até que o patrão chegasse. Quando finalmente chegaram à porta do escritório, como tinha treinado bastante…saiu-me lindamente esse primeiro contacto. Tão bem que mostraram-se muito agradados pelo facto de finalmente darem com alguém com quem podiam conversar. Só que depois de expressarem o seu agrado tive de dizer: “I don´t speak english.” Ainda inconformados aceitaram muito bem.
Permaneci mais alguns anos e acabei por despedi-me por iniciativa própria. Tiro a seguinte conclusão: O poder de persuasão faz milagres. Atreva-se!

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