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Permissividade…

Quem me dera voltar a ser Criança

Voz às Escolas

2016-03-10 às 06h00

Luisa Rodrigues Luisa Rodrigues

Décadas de trabalho numa escola fazem de qualquer profissional de educação um observador privilegiado das mutações que o ensino e a educação têm sofrido, mutações essas que nem sempre correspondem ao expectável, se tivermos em conta que o que se esperava seria que, independentemente dos manifestos eleitorais e, acima de tudo, da realidade subsequente a cada vitória, porque raramente o apregoado antes tem ligação direta com o depois, no que às políticas educativas respeitasse, seria inquestionável a existência de alguns princípios básicos, através dos quais ficasse bem claro o papel de cada interlocutor no que à educação e ao ensino respeitasse.
Acontece, porém, que para além das constantes mudanças a que fomos assistindo, mudanças essas que hipotecavam o verdadeiro papel da escola, fomos sendo presenteados com medidas que, por um lado, limitavam a autoridade dos professores e que, paralelamente, reforçavam o papel interventivo das famílias, o que, no que às famílias respeitava, mais não era do que a resposta ao investimento que a escola fazia para que os pais assumissem o seu papel de interlocutores privilegiados na formação dos seus filhos.
Mas as mudanças não se operaram apenas no sistema educativo. A sociedade, em geral, foi sendo acordada com uma multiplicidade de medidas políticas que, associadas às que iam sendo aplicadas às escolas, tiveram um efeito extremamente nefasto no seio das mesmas, tendo em conta que as famílias, a braços com problemas sociais para os quais não encontravam solução, canalizaram as suas frustrações para o elo mais fraco - a escola, adulterando o sentido e a mais valia que, inquestionavelmente, constituía a parceria conquistada.
De interlocutores para o sucesso, um número significativo de pais passou a desempenhar o papel de advogado de defesa, pelo que passou a “viver” na procura de bodes expiatórios para os comportamentos disruptivos dos filhos, comportamentos esses que, registe-se, só aceitava quando confrontado com evidências que não podia refutar, o que tem vindo a aumentar a frustração dos professores e está a destruir a sua enorme capacidade de inventar, e reinventar, estratégias para que todos possam alcançar o sucesso que lhes permita enfrentar, num futuro, para alguns bem próximo, o mundo do trabalho e o seu papel numa sociedade ávida de mudanças que reponham alguns valores que sempre se assumirão, como tal, independentemente das políticas e dos governantes.
Expectadores, por excelência, e lutadores, por profissão, os professores tentam encontrar soluções para um problema que tem efeitos diretos nos resultados escolares, mas por mais criativos e persistentes que sejam, não há dúvidas de que as famílias fazem toda a diferença, num processo em que todas as energias são canalizadas para o público com o qual trabalham, e que, diariamente, os confronta com a autoridade de quem tem como segura a defesa por um advogado que, fazendo da permissividade lei, encontra justificações de variada ordem para os atos que pratica.
Felizmente, a escola ainda pode contar com uma mão cheia de pais que, fazendo toda a diferença, são capazes de um diálogo assertivo e construtivo, conscientes de que uma grande parte da formação dos seus filhos depende da escola e do papel que esta assume no seu crescimento.
Talvez esteja na hora desses pais tomarem posição contra a permissividade que grassa nas famílias, de um modo geral, para que a escola possa rentabilizar o tempo que despende a gerir conflitos, resultantes da fragilidade da autoridade da família, em prol das aprendizagens.

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