Correio do Minho

Braga, terça-feira

Pessoas inteligentes e adequadas têm relações positivas na sala de aula, e fora dela

O seu a seu dono!

Escreve quem sabe

2014-01-28 às 06h00

Cristina Palhares

Nas nossas intenções anuais, de ano novo, de mudança, de comprometimento, que alguém dizia com sentido de humor, fruto de doze meses concebidos eficazmente para que pudéssemos projetar no primeiro dia do ano os doze meses seguintes num ciclo que mais curto ou mais comprido não teria a mesma eficácia, surge sempre, pelo menos nas conversas de professores e educadores, o firme propósito de tornar as suas aulas, as relações com os seus alunos, as relações com os seus colegas, em momentos mais positivos.

Esta positividade, hoje amplamente difundida (para o bem e para o mal) está assente numa visão de aprendizagem que sai do foro estritamente cognitivo para o foro emocional, (se bem que eu entenda também o foro emocional imiscuído de muita cognição - tema para depois). Perceber que a aprendizagem é antes a descoberta do sentido que os acontecimentos significam para cada um, e que é um processo de construção pessoal, interior, e que o apoio do educador não pode nunca deixar de contemplar a esfera emocional, permite perceber que são as relações pessoais que estabelecemos na sala de aula e em seu redor que desafiam os objetivos da educação.

Queremos sucesso escolar, sim. Não através do adquirido, resultado imediato, mas através do “aprendido”, resultado de uma construção, de um longo processo com vista à aquisição de saberes-fazer organizados, desenvolvendo espírito crítico, que levem à aquisição de um “saber-ser”. O desafio da educação assenta assim não num sistema fechado de pensamento, próprio do estudo do mundo físico, dos objetos, que possibilita o progresso e o controlo, mas no novo instrumento das ciências sociais e humanas, o sistema aberto de pensamento, que possibilita a compreensão dos problemas humanos.

“Problemas humanos nunca se prestam a respostas e soluções predefinidas e predeterminadas. Um bom exemplo encontra-se em educação. Por mais de cem anos, os sistemas de educação foram razoavelmente capazes de organizar e manter um currículo básico para todos os alunos. O objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro, e todos sabiam o que os alunos precisavam aprender. Mas a mudança rápida dos tempos modernos destruiu essa ideia. O objetivo da educação, nos tempos atuais, já não é claramente definível e visível. O melhor a que podemos visar é a produção de pessoas inteligentes e adequadas, capazes de enfrentar problemas e situações novas e encontrar soluções apropriadas à época e no lugar em que estão a viver. E esse objetivo exige um sistema aberto de pensamento” (Guenther).

Este excerto tem um sabor amargo por ir ao encontro do que consideramos hoje um dos grandes desafios da Educação: a formação de pessoas inteligentes e adequadas. Amargo pela sua dificuldade de concretização, uma vez que necessita de ser confrontado por um sistema aberto de pensamento, que é, numa perspetiva de inovação e mudança pedagógica, o que traz mais dificuldades na formação de professores. A mudança de atitudes, de padrões e modelos pedagógicos com vista à renovação gera elementos de rutura, criando situações de incerteza e angústia dos educadores.

É esta tomada de consciência do comportamento do educador que urge refletir: só podemos ajudar na formação de pessoas inteligentes e adequadas se nos tornarmos nós próprios inteligentes e adequados. “Ser uma pessoa inteligente e adequada implica, primordialmente, ser capaz de perceber, analisar e considerar todas as informações presentes nas situações que vive, todos os dias; e, ainda mais, em face de todos esses dados, tomar a decisão mais acertada, e assim agir na sua vida de cada dia.” (Guenther).

Os sentimentos de adequação são os que levam as pessoas a alcançarem um alto grau de satisfação e prazer na vida. Cabe aqui ao professor a grande responsabilidade, que julgo ainda não estar profundamente reconhecida, na formação de pessoas adequadas: “Percebem-se de maneira essencialmente positiva e, como consequência, são livres e abertas à própria experiência, capazes de se aceitarem e aceitarem os outros, e capazes de se identificarem ampla e profundamente com os outros seres humanos”. E só assim, retomaremos o início deste texto: o firme propósito de neste novo ano tornarmos as nossas relações mais positivas. E felizes, pela certa!

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