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Pilares de Prosperidade

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Pilares de Prosperidade

Ideias

2021-06-18 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Antes de mais, o seu a seu dono: o título foi “raptado” de um artigo científico muito recente, divulgado no contexto de um centro de investigação inglês em política económica, o CEPR. Parece que os seus autores também o repescaram, de uma citação de Adam Smith …
Porque vivemos indubitavelmente em contexto global, embora o efeito da pandemia, a paz continua a ser um desses pilares. A evolução nas últimas décadas foi sendo relativamente positiva. De acordo com dados de Besley, Persson e Dann, desde 1950, a proporção de países envolvidos em repressão baixou de entre 30% a 40% nos anos 50, para próximo de zero por início deste século; no entanto, tudo tem vindo a piorar, principalmente desde 2006. Manifestação da crise económica, da erosão dos valores democráticos, da abertura crescente a valores protecionistas e populistas? A China parece ter vindo a melhorar a sua posição relativa, mas já os Estados Unidos ou a Rússia foram fazendo o percurso inverso. Neste contexto, o recente encontro entre Biden e Putin, ainda que não tenha resultado em nada de extraordinário, pode ser lido de forma positiva. Os Estados Unidos, no pós-Trump, parecem voltar a uma linha cooperativa e de influência no quadro internacional, forçando de certa forma a Rússia a acompanhar. Também boas notícias decorrem do acordo entre a União Europeia e os Estados Unidos para a suspensão das retaliações comerciais entre os dois blocos, e que já duravam há cerca de cinco anos. Traduziam-se em taxas sobre exportações que eram aplicadas por causa de uma disputa antiga sobre subsídios e ajudas de Estado atribuídos aos fabricantes de aviões, Boeing e Airbus. Por enquanto, tudo isto se aproxima muito de um acordo de boas vontades, com vencimento previsto para 2026, mas fica percetível que os ganhos advirão de cooperação mútua.
O crescimento e o desenvolvimento económico são outro pilar fundamental. Como a distribuição de rendimentos. Besley e os seus co-autores argumentam que todos os países mais desenvolvidos seguem fundamentalmente a mesma lógica, de dominância do interesse comum, e apresentam níveis de rendimento elevado, estados com elevada capacidade e ausência de violência política. Nesse quadro, integram-se países com instituições políticas coesas e transparentes, que garantam a provisão de bens públicos e mecanismos redistributivos, criando incentivos para o desenvolvimento das capacidades individuais, democracias participativas a todos os níveis, desde o nacional ao local. Mas também com estruturas legais capazes de ser eficientes e entenderem, na prática, a sua importância para permitir um bom funcionamento da economia.
A estrutura do desenvolvimento humano, em todo o mundo, mudou muito; em 1975, cerca de 1,1 e 1,6 biliões de pessoas podiam ser abrangidas por níveis baixo ou médio de desenvolvimento. No final da década de 90, o Relatório das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano (2001) classifica-o como sendo já, predominantemente, médio ou elevado, envolvendo respetivamente 900 milhões e 3,5 biliões de pessoas. Mas a divergência tornava-se cada vez maior; a distância entre o rendimento do país mais rico e o do país mais pobre era cerca de 1 para 4 em 1820, 1 para 13 em 1913, 1 para 26 em 1950, 1 para 39 em 1989, tendo continuado sempre a subir.
Até ao período em que eclodiu a crise financeira global de 2008-09, os rendimentos individuais dos 1% mais ricos em todo o mundo, a elite, registaram um claro acréscimo. Um estudo de Milanovic, de 2017, mostra que em 2008, a percentagem dos rendimentos mais elevados andava por 15,7% da população mundial, enquanto no início da década era 14,5%; se se incluir a rendibilidade dos bens ocultos em paraísos fiscais e o desempenho dos mercados bolsistas mundiais no pós-crise 2008-09, o peso dos 1% mais ricos terá subido, entre 2000 e 2008, de 32% para 46% dos rendimentos mundiais.
Em 2019, segundo dados da Forbes, o número de milionários internacionais aumentou para 47 milhões, detendo quase 50% da riqueza mundial. Também o grupo dos hiper-ricos, multimilionários, com património superior a mil milhões de dólares, tem vindo a aumentar desde que a Forbes publica as suas listas da riqueza mundial (1987); em 2013, esse grupo abrangia 1426 pessoas em todo o mundo, e era responsável por cerca de 2% da riqueza mundial. Em 2019, havia mais milionários em Portugal que no ano anterior; 50 pessoas, mais cinco do que em 2018 (Forbes), tinham fortunas acumuladas superiores a 50 milhões de euros. A pandemia, tudo indica, terá paradoxalmente contribuído para o reforço das desigualdades na distribuição de rendimentos.
De acordo com a Comissão Europeia, estima-se que por 2030, a classe média em termos mundiais possa vir a abranger cerca de 5,3 biliões de pessoas, representando mais 2 biliões de pessoas com mais poder de compra do que atualmente. Na China, por 2030, 70% da população poderá integrar a classe média.
A China e a Índia poderão então vir a representar 66% da classe média mundial, e 59% do consumo em termos mundiais, indiciando uma larga percentagem da população que terá saído da pobreza. A quebra nos rendimentos da classe média nos países mais ricos é uma das explicações que têm sido adiantadas para uma maior difusão das ideias populistas e nacionalistas desde a crise de 2008-09. Um dos efeitos da globalização parecer ter sido um alargamento da desigualdade na distribuição de rendimentos dentro dos países, uma vez que enquanto as classes médias mais baixas parece serem perdedores, as classes mais ricas viram reforçados os seus ganhos relativos. Isto não constitui um pilar de prosperidade.

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