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Plano, para quê?...

Confinamento no Concelho de Braga

Plano, para quê?...

Ideias

2021-05-17 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Apresentado como a síntese orientadora do investimento futuro e do caminho a seguir para as supostas recuperação e resiliência de um país a uma crise nunca antes experimentada (nos termos e circunstâncias registadas), o plano de recuperação e resiliência, apresentado pelo país à comunidade europeia, re- vela-se exercício que reflecte e condensa a estimada capacidade financeira e o concebido conjunto de acções, projectos e obras capazes de materializar a dinâmica da reacção e a reactivação da actividade económica e cultural (no conceito mais amplo das palavras) deste país chamado Portugal.
Para muitos, espelho da dita “bazuca financeira”, para outros, tradutor de uma certa ideia de Portugal próximo e futuro que se repete e pouco ousa, para tantos outros, resposta às debilidades e fragilidades actuais que, inevitavelmente e por uma “suposta” última vez, conhece oportunidade de superação, o plano de recuperação e resiliência é, incontornavelmente, documento demasiado importante para ser desvalorizado e secundarizado, não ser objecto de reflexão e revisão crítica. E tal não no sentido crítico negativo – ou seja, encontrar os seus pontos fracos para depois apontar e visibilizar sem nada acrescentar – mas, pelo contrário, no sentido positivo da mesma crítica, tentando adicionar densidade, compreensão e melhoria a um documento que, repete-se, será presença constante e condicionadora do nosso quotidiano próximo e futuro.

Acredita-se que tudo começa pelo nome. E pelo nome, sinalizamos “ao que vimos e o que queremos”. Como tal, importa reflectir sobre o significado real e concreto da denominação plano de recuperação e resiliência.
Este título encerra três palavras estruturantes: plano, recuperação e resiliência. Plano significa antecipar o futuro, antever e perpsectivar caminho de resposta a esse futuro. Não é acto de fé porque carece de estudo e previsibilidade que a análise histórica e a experiência adquirida nos dão. Mas também não é acto racional isento de risco, erro ou incorrecção. É um esforço de tentar desenhar e desmontar o futuro, perseguindo o domínio, tanto quanto posssível, das suas variáveis, indiciando ferramentas de trabalho, tantas quanto possíveis, eficazes no combate e superação das suas mutações.

Recuperação no sentido de cobrir e superar as perdas resultantes do momento pandémico e deste confinamento silencioso do dinamismo da actividade humana, nos seus múltiplos âmbitos e aspectos.
Complementarmente à recuperação acrescenta-se resiliência, conferindo e reforçando a ideia de uma actividade humana sofrida e dorida, mas que sobrevive e se prolonga no tempo.
Ou seja, e em síntese, o plano de recuperação e resiliência é uma tentativa de antecipar o futuro, dando condições para que, o que hoje se silenciou com a pandemia, volte a emergir com dinamismo e brilho, e se robusteça no seu desempenho de superação de futuras dificuldades.

Chegados aqui, e porque o nome é indício e rosto, significando sempre qualquer coisa”, pergunta-se se o nome encontrado é verdadeiramente ajustado e correcto. E, sobretudo, se o mesmo é capaz de sinalizar e assinalar a esperança de um futuro melhor e mais ajustado que todos, acredita-se, assim desejam.
Ao nível da Cidade e das cidades, é convicção de que importa sinalizar algo mais do que recuperar e resistir.

As ditas “nossas cidades” afirmaram-se suportar a dor do seu espaço público vazio e a fatalidade da porta fechada dos prédios marginais. E, sobretudo, revelaram um potencial de melhoria e experimentação tão elevado que tal merece ousadia com equilíbrio e sem limites, transformação racional e destemida. Como consequência, sinal de algo mais do que recuperar e resistir.
Não se trata de nos fixarmos no lado oposto e defender um plano de revolução e ruptura. Não! Na verdade, aceita-se convictamente que as cidades não precisam de revolução, de um “reiniciar” tão profundo que originará turbilhão de movimentos e uma urbanidade em polvorosa. E que implicará radicalidade violenta no enfrentar e abordar diferenciadamente temas como o espaço público e a mobilidade, a habitação, a cultura e o ambiente.

Pelo contrário, aceita-se o meio termo (ou, preferencialmente, o equilíbrio), ou seja, ir além da recuperação e resiliência, ficar aquém da revolução e ruptura, optar pelo reforço e pela reforma, desenhando um plano que reconheça o que de bom exista e tem condições para existir, que identifica o que tem de ser melhorado e alterado, ou seja, transformado positivimente. Dito doutra forma, reformado.
Acredita-se que a transformação se faz pela ousadia e com coragem (ou seja, vencer o medo). E de olhar em frente, sem medo do passado e presente, e de todas as sinecuras, hábitos e direitos gerados, requerendo e exigindo não um plano que visa apenas a recuperação e resiliência, não um plano que violente com revolução e ruptura, mas um plano que reforce e reforme. E que responda ao futuro que tanto desejamos viver.

(continua)

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