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Pobreza

Nem um direito a menos

Pobreza

Ideias

2019-10-25 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

“Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar” : os primeiros versos da Cantata de Paz, um dos mais belos poemas de Sophia de Mello Breyner. E continua: “Vemos, ouvimos e lemos/ relatórios da fome/ o caminho da injustiça/ a linguagem do terror “, concluindo que “o nosso tempo/é um pecado organizado”. Este poema veio-me a memória ao ouvir os relatos da morte de 39 pessoas, dentro de um camião, no Reino Unido. 38 adultos e 1 adolescente. E a notícia fica assim num limbo, nada realmente se sabe sobre as pessoas. Sem identidade, sem história, no fundo porque fica a todos mais fácil.

Este ano o Prémio Nobel da Economia foi dado a três economistas da área do desenvolvimento: Esther Dufflo, uma mulher ainda jovem, mas com um trabalho determinante no desenvolvimento mais recente da área, e outros dois professores mais “crescidos” como dizem em Espanha, Abhijit Banerjee e Michael Kremer. O centro do trabalho tem a ver com questões relativas à pobreza, e o desenho de mecanismos diversos capazes de atuar a um nível mais micro, identificando causas e propondo soluções que já se sabe que irão funcionar. Conforme explica Dufflo num dos artigos (2017) que tem vindo a publicar, a economia pode ser vista um pouco como a engenharia no sentido de descobrir estratégias pontuais para resolver problemas pontuais, e propõem por isso conduzir experiencias, que tornem possível analisar de facto como é que as pessoas respondem em determinadas situações, como se comportam face a mecanismos diferentes. Provavelmente, as faltas sistemáticas de crianças a aulas, ou mesmo o abandono escolar deve-se a doenças que poderiam ser facilmente evitáveis, como um desses autores comprovou na Índia.

Independentemente das questões de fundo que esta abordagem coloca, não deixando de confrontar modelos de bem-estar social, responsáveis pela oferta genérica, para todos, de instrumentos de política económica e social como a saúde, ou a educação, ou deixar a cada um a capacidade para escolher, livremente, os instrumentos que lhe possam ser preferíveis num determinado momento, o certo é que a pobreza é uma questão cada vez mais urgente. Em Portugal, e apesar de alguma melhoria, o risco de pobreza é ainda superior a 10%, e mais elevada no caso de crianças e mulheres. Os trabalhadores por conta própria, ou com contratos temporários ou part-times são mais vulneráveis. De acordo com um estudo de Pereirinha, de 2017, uma pessoa necessitaria de pelo menos um salário de 783 euros mensais para ter um nível de vida minimamente digno, enquanto um casal com um filho precisaria de 1.800 euros, seguramente mais do que isso se viver numa grande cidade.

Os salários são inegavelmente baixos, e no fundo isso reforça uma cultura ainda dominante que desvaloriza as vantagens da educação face a alternativas de curto prazo (ir viajar, comprar um carro bem maior, etc), baixos níveis de qualidade de vida em termos de saúde, contribui para a manutenção de níveis de produtividade baixos e para uma evolução demográfica desastrosa. Portugal foi ainda um dos países na U.E. onde mais cresceu o custo da habitação, hoje perigosamente perto do proibitivo; as Câmaras Municipais ainda não perceberam bem quais os desafios, novos, com que estão já a ser confrontadas, e o papel que terão de desempenhar neste contexto.
Nada disto é fácil de resolver, mas estas questões são de facto muito mais importantes, e determinantes, do que se poderá pensar em termos do crescimento e desenvolvimento potencial nos próximos 20 anos.

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