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Ideias

2023-07-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Guiamo-nos por palavras. Seguimos empenhadamente líder que nos vista com uma ideia da alma à pele, de presumido calcanhar de Aquiles a um peito ao vento, feito à afirmação, à vitória, à conquista. Fraseologia guerreira que nos sobra para aplicação tópica, sobre nós, sobre as nossas fraquezas e desfasamentos, sobre os nossos atrasos e desencantos, sobre o nosso inglório arrastar de pés. Queremos mais, e o obstáculo que se levanta à nossa realização reside em nós, ou na porta ao lado, ou na fraqueza estrutural de partidos políticos destituídos de ideário e ambição colectiva, ou no líder sem rasgo, que se consuma a espelho próprio na fatiota vistosa e no motorista às ordens.
Aspiramos a um mundo para lá da grelha desasada do PPPBB – partido português dos pedantes, dos boçais e dos bacocos –, força que em discurso autoerótico orbita em estação arejada vai para décadas nas raias de Plutão. E nós cá, tão ao rés da terra, tão nas obscurescências de um estático 8X4 de rotunda, flor sem néctar nem aroma que falhará prometer fartura, que falhará cativar bichito polinizador. Um «consigo» que joga como imagem reversiva entre a flexão verbal na primeira pessoa e um pronome de companheirismo, de sujeito plural. Recordei Obama, um «yes we can», um «nós podemos», um «eu posso», a que por contraste me acudiu o poço que é Portugal – o nosso poçogal.
Ai Deolinda! Ai Deslandes! É de reouvir esse emblemático «que parva que eu sou» dos princípios de 2011. É canto que ainda dói, sobretudo pelos aplausos mais que justificados a cada verso culminante, sobretudo pelo silêncio de catedral a cada primeira nota. Julho de 2023 é a barda Deslandes que, em serviços mínimos, ensaia algo transmitir-nos: que nos reunamos, que nos manifestemos, que deixemos patente que nos maltratam. Não ter ela composto um hino!
A despeito do que pessoalmente me fira, volto atrás, entrego a alma em chagas à voz de anjo negro da Ana Bacalhau. Vida que nunca mais foi a mesma, quanto eu não fosse da geração a quem o canto se dirigia. Veio a troika. Veio o trucidante Passos Coelho. Veio o mui distinto Costa. E em que pé estamos – a ponto de reclamar nova ode ao músico e letrista Silva Martins?
Um destino, ou um conforto. Uma linha de conduta, ou uma esperança. Um estaleiro fervilhante, ou uma doce melancolia. Em suma, algo que não este poço fúnebre, este sumidouro de aduelas pré-fabricadas, sabemos lá se em Bruxelas ou Berlim, se em Washington, que o pedreiro subcontratado Costa adentra na aridez com dito e gesto gingão, aludindo uma luz ao fundo do túnel, um manancial fresco e limpo ao fundo da mina.
Percebermos nós que Costa não é um estadista, é um agente funerário, que não é um Leão de Judá, é um gato-pingado. Percebermos nós que o PS de hoje e de sempre usufrui de bênçãos e indulgências. Percebermos nós que o pessoal cantante e a intelligentsia em geral não caem sobre os desacertos socialistas com o afinco criativo que alocam a qualquer Passos Coelho de circunstância. Percebermos nós, enfim, que se a matriz sociopolítica prevalecente não satisfaz, que se maioritariamente não nos reconhecemos na oferta, então boa e expedita é a solução, e que para o efeito nos baste por exemplo um partideco malquisto que monta e faz escola: de que nadas vem o Chega para ao presente parecer congregar uns 15% do eleitorado? Que insulto não é à inteligência a confissão descoroçoada de que só os piores façam carreira e ascendam até se açaparem no Poder?
Parece contentar-se o PSD com a agência de imagem que pariu um «consigo» de apelo primário. Têm de cavar mais fundo.
NB Texto composto por inteligência natural, se me permitem o encómio.

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