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Podemos fiar-nos na Wikipédia?

Beco sem saída

Ideias

2016-09-16 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Há quase meia década - no dia 19 de janeiro de 2012, uma quarta feira - a Wikipédia (neologismo da autoria de Larry Sanger, um dos seus fundadores, por combinação de “wiki”, que na língua havaiana significa “rápida”, e do vocábulo de origem grega “paideia”, que quer dizer “educação”), criada em 2001, ficou indisponível durante 24 horas.

Foi um assumido ato de protesto contra uma iniciativa legislativa da Administração Obama de combate à pirataria na Internet que, no entender dos seus opositores, entre os quais Jimmy Wales, outro dos fundadores da conhecida enciclopédia em linha, colocaria nas mãos de algumas poucas grandes corporações o poder de bloquear o acesso a qualquer website que supostamente apresentasse conteúdos questionáveis e, por essa via, condicionaria severamente a liberdade de expressão.
Como foi amplamente noticiado na altura, pessoas um pouco por todo o mundo fizeram coro a criticar o ato da parte da Wikipédia.

Entre os mais irados estiveram inúmeros estudantes e professores que nesse dia se viram impedidos de aceder a tal fonte privilegiada - por muitos, confessa- damente, única - de elaboração e preparação de trabalhos e aulas.
No capítulo da excessiva dependência em relação a uma tecnologia este será, por certo, um exemplo paradigmático.
Mas, essa ferramenta - que só nos E.U.A. é usada por mais de 25 milhões de pessoas a cada dia - merece a nossa confiança, no sentido em que podemos manusear a informação dos seus artigos como representando autêntico conhecimento controlado e legitimado pela comunidade científica relevante?

Como se poderá ler na entrada a si mesma dedicada, a Wikipédia sofreu igualmente em 2012 uma alteração radical na sua organização: a anarquia inicial cedeu lugar a uma hierarquia cada vez mais forte ou, mais especificamente, o seu modo de funcionamento foi deixando de ser completamente aberto, isto é, con- cedendo a quem quer que fosse a possibilidade de criar livremente um artigo e de introduzir modificações quase instantâneas em qualquer outro dos já existentes, e foi substituído por um sistema com múltiplas restrições e no qual “editores estabelecidos” detêm prerrogativas especiais para controlar cada artigo em todas as suas fases e até impedir a sua publicação.

Essa transformação surgiu em resposta ao sem número de vulnerabilidades a que foi ficando cada vez mais exposta, nomeadamente a difusão de textos com erros de vária ordem, conteúdos irrelevantes, motivações ideológicas censuráveis e a vandalização de outros nos quais se inseriu informação espúria ou adulterada. Tais problemas foram - e continuam a ser - tantos que mereceram a sua compendiação na longa entrada “Crítica da Wikipédia”.

Mas o mais inquietante talvez tenha sido o “incidente (John) Seigenthaler”, em 2005, gerado pela inserção de dados falsos - e.g., afirmando que fora um dos suspeitos dos assassinatos de John F. Kennedy e de Robert F. Kennedy - sobre aquele jornalista e político estadunidense num artigo anonimamente criado na Wikipédia com uma sua biografia, só detetados quase meio ano depois (não pelos editores da obra) e que produziu sérios danos na sua reputação.

Enfim, não querendo cometer a falácia da generalização indevida de condenar a Wikipédia no seu todo, julgo que não devemos descurar uma atitude de saudável ceticismo em relação ao que nela se publica, de comparação dos seus conteúdos com os de obras homólogas, eletrónicas e impressas, e, claro, confirmando e reconfirmando metodicamente todas as informações nela veiculadas.

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