Correio do Minho

Braga,

Poeticamente

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2016-07-20 às 06h00

Escritor

Luís Fernandes

Uma faúlha fugia como uma criança que, no seu espírito curioso, explorador e aventureiro, foge da mãe para explorar o centro comercial. A faúlha fugia apaixonada pelo vento, o seu amado. Ela lá andava conforme ele queria, ora para cima, ora para baixo. Até que, a dado momento, o vento, velho mulherengo, a deixa. Aí, tal como a maçã que, quando madura está, cai, a faúlha tombou no chão e, lentamente, apagou-se, acabando por morrer.

Estávamos todos reunidos ao pé da fogueira. Uns abraçavam-se, sussurrando, no tom romântico que aquele ambiente proporcionava, um amo-te ou tudo em mim é teu, eu sou teu, somente teu; outros, que eram casais incompletos, estavam sós, porém, apaixonados e aproveitavam a saudade para pensar no dono de seus corações. Havia, também, naquele grupo juvenil, os que tinham como companhia a solidão. Estavam lá para pensar, pois, quem só está aproveita o tempo de solidão para pensar. Suponho que fosse um desses (talvez o único) e olhava firmemente para a fogueira, nela via as pequenas faúlhas voarem livremente. E pensei:
- Porque não posso ser eu livre, como estas faúlhas?

Não continuei a pensar. Já a lua alta ia e a partir da uma da manhã o meu ser não pensa, fica num estado de dormência, como se estivesse sob o efeito de alguma droga.
O som da guitarra triunfava no silêncio da aldeia, fazendo vibrar as folhas da nogueira que repousava sobre nós. Recomecei a pensar, tinha de pensar. Pensei no amor, no meu amor daquele verão.

Começara por ser um dia solarengo e quente. As pessoas acorriam às piscinas, praias, esplanadas. Eu, pelo contrário, fora chamado, por alguma força, para uma biblioteca. Caminhava pelas ruas da cidade pelo simples prazer de caminhar, porém, quando cheguei à biblioteca, parei e entrei. Pouca gente estava. Uma senhora idosa dormitava numa mesa. Uma jovem estudava furiosamente rodeada de livros e café. Uma rapariga, dos seus quinze anos, estava sentada nas escadas.

Tinha o cabelo castanho ondulado desprendido, que lhe dava um ar selvagem. Lia poesia. Estranhei, que jovem de hoje lê poesia? Lia a mesma poesia que eu leria - Pessoa. Ao seu lado repousavam dois grandes livros, poesia (novamente), um de Sophia e outro de Sá-Carneiro. Pensei para mim «Leria ela por obrigação ou leria simplesmente por prazer?». Aproximei-me, sentei-me ao seu lado. Ela levantou a cabeça, lia Autopsicografia, pude olhar para ela. Ai que belos olhos! Olhos verdes tal como os de Sophia Loren, profundos, apaixonantes, simplesmente belos. Ela levantou os olhos, olhou para mim, ia começar a falar, não hesitei, toquei-lhe na face rosada e beijei-a, num beijo demorado. Não me afastou, pelo contrário, passou a mão pelo meu cabelo e assim ficamos por longos momentos.

Chamava-se Amélia. Passámos o verão juntos. Íamos para o parque, sentávamo-nos cada um com o seu livro e declamávamos poemas um ao outro. Escrevíamos cartas de amor um ao outro, cartas longas e profundas, cheias de amor. Era um verdadeiro amor de verão. Cheguei a declamar-lhe, à noite, no quintal da sua casa, o poema mais belo que conheço: Todas as cartas de amor são ridículas, de Álvaro de Campos. Desceu, com os olhos a lacrimejar, deitámo-nos e adormecemos no quintal, a contar as estrelas daquela noite estrelada.

Era um amor de verão, ela nem vivia em Braga. O seu pai era o embaixador português em Havana, que tirara umas semanas de férias. Ela partiria em breve e tudo o que levava eram dezenas de cartas, centenas de beijos, milhares de memórias e um único adeus. Um adeus doloroso.
Aproveitámos os últimos dias para vivermos aquele amor. Declamava-lhe poemas entre beijos. Fugíamos para o rio, sentávamo-nos para molhar os pés, pegávamos cada qual no seu livro e líamos em voz alta as passagens mais românticas.

Faltavam dois dias para ela se ir embora, o sol punha-se por detrás das árvores, uma pequena lágrima escorria pela face dela, e outra pela minha, beijámo-nos como nunca nos havíamos beijado. Era um beijo de despedida.

No dia da despedida fui ter com ela. Caminhava pela estrada e vi o carro partir, comecei a correr como nunca corri. Corri, corri e corri. Cheguei perto do carro, bati no vidro, ela viu-me. Viu-me correr e a chorar. Gritou para pararem. O carro parou bruscamente, ela abriu a porta e saiu; o pai, no seu sotaque meio cubano, gritou, volta a entrar, ela abraçou-me e beijou-me. Eu beijei-a, corriam lágrimas pela nossa cara, ambos sabíamos que nunca mais nos veríamos.

Não conseguíamos parar de nos beijar, continuávamos abraçados, ali naquele dia quente de verão, naquela estrada, estávamos, simplesmente, a amarmo-nos.
Ela disse, soluçando:
- Tenho de ir. Escreve-me. - Começou a entrar no carro - Eu sem ti não existo. Sou como a lua sem o sol. Eu amo-te. - Saiu do carro e deu-me um beijo. Voltou a entrar no carro - Sabes, Baltazar, todas as cartas de amor são ridículas. - O carro arrancou.
- Eu nada sou sem ti. Amo-te, como Simão amou Teresa. Amo-te, amo-te...

O grupo começou a cantar a Shine Like a Crazy Diamond dos Pink Flyod, o som faustoso da guitarra acabava com o silêncio solitário da aldeia. Eu estava sentado numa cadeira, a fogueira ainda continuava viva, eu é que morri um bocado ao recordar o momento, uma lágrima escorreu pela minha face vermelha.

Continuámos a trocar cartas, mas cada vez com menos regularidade, cada vez menos apaixonados. Cada um seguiu o seu caminho, ela apaixonou-se, eu apaixonei-me, mas nunca como nós tínhamos apaixonado um pelo outro.

Dez anos mais tarde, voltei à biblioteca no mesmo dia em que a tinha conhecido. Era uma ideia estúpida: voltar a entrar e vê-la. Mas sentia a mesma força que dez anos antes me levara lá. Entrei, e lá estava ela, com o cabelo selvagem, a ler Pessoa e com os dois livros ao lado. Corri para ela e beijei-a.
- Baltazar!
- Amélia!
- Amo-te … Como o Sol ama a Lua.
- Amo-te … Como a Teresa ama o Simão.

(Baltazar e Amélia casaram-se, tiveram três filhos, viveram uma vida feliz e longa. Três dias depois de Amélia morrer, Luís foi ter com ela. Hoje as cinzas de ambos repousam no fundo do rio, onde um painel de azulejos mostra a sua imagem e o poema Todas as cartas de amor são ridículas).

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