Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Política com mentiras

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2016-02-23 às 06h00

Jorge Cruz

A cidade de Braga foi há dias apontada como um exemplo mundial na promoção de políticas centradas nos jovens, referência elogiosa que muito deve orgulhar os autarcas e a própria população bracarense. Na circunstância, na cerimónia de abertura da Capital Ibero-Americana da Juventude, o presidente da Câmara referiu que esta designação representa “um novo desafio para a cidade na sua afirmação além-fronteiras, visando a juventude como actor principal, num processo de desenvolvimento e de educação global”.

A nomeação constitui, obviamente, um motivo de enorme alegria para Braga e, de certa forma, para o país tanto mais que esta é a primeira vez que uma cidade europeia é escolhida como Capital Ibero-Americana da Juventude. Mas, conforme também frisaram diversos responsáveis políticos na citada cerimónia, a opção pela capital do Minho corresponde a um acto de inteira justiça, tendo em conta o rico historial da cidade em matéria de políticas de Juventude.

De facto, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, o secretário-geral do Organismo Ibero-Americano da Juventude e a conselheira do Presidente da República para a Juventude afinaram os seus discursos pelo mesmo diapasão ao evocarem o papel de relevo que Braga desempenhou no Fórum Mundial da Juventude, em 1998, e nas medidas subsequentes que deram continuidade às políticas jovens e de promoção da Juventude.

De resto, foi devido a essa imagem de marca, a esse “longo historial de trabalho em benefício das políticas jovens e da promoção da juventude”, que a cidade de Braga também foi distinguida em 2012 com a escolha para Capital Europeia da Juventude e, posteriormente, para sede da Agência Portuguesa do Programa Erasmus.

Curiosamente, ou talvez não, Ricardo Rio não assumiu a postura de Estado que o momento exigia, antes preferiu enveredar por uma via parola de alguma soberba e de puro eleitoralismo, assumindo-se assim como única voz dissonante na cerimónia. É certo que Rio reconheceu, e bem, que “Braga tem-se posicionado, cada vez mais, como uma cidade de referência na área da juventude, com políticas que visam reforçar a empregabilidade, aumentar o acesso a actividades de âmbito cultural e desportivo, assim como estimular a participação cívica dos jovens na vida pública”.

Todavia, o presidente da Câmara cedeu à sobranceria e ao eleitoralismo quando, em absoluta desarmonia com os outros oradores, tentou refazer a história. A torpe tentativa, que admito possa colher junto de apoiantes menos informados, consistiu em afirmar que a designação de Capital Ibero-Americana da Juventude constitui o reconhecimento do “vasto e consistente trabalho realizado ao longo dos últimos três anos, ao nível das políticas de juventude”.

É claro que a indicação de uma cidade para capital da juventude, da cultura ou de qualquer outra área, a nível europeu ou ibero-americano, depende de múltiplos factores mas, sobretudo, do histórico que essa urbe pode apresentar, ao longo dos anos, da sua prática política na área correspondente. O que certamente ninguém acredita é que a escolha se baseie apenas num período de tempo tão curto como são os últimos três anos referidos por Ricardo Rio. Como, de resto, ficou inequivocamente demonstrado pelos outros três oradores na mesma cerimónia de abertura.

A propósito desta infeliz tentativa de manipulação, apetece-me evocar uma pequeníssima parcela do nosso invulgarmente rico património cultural, ou seja, os ditados populares e, no caso em apreço, aquele que refere que “mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo”. Tanto mais que este não é um caso isolado, bem pelo contrário, os (maus) exemplos em que este provérbio pode ter perfeita aplicabilidade abundam na política portuguesa, e não se circunscrevem apenas a Braga. Bastará, a propósito e para citar apenas alguns dos mais recentes, lembrar as recentes e descaradas declarações do ex-Primeiro-ministro Passos Coelho sobre o Banif ou a inenarrável questão da entrada de um grupo chinês no capital da TAP.

No primeiro caso, o líder do PSD não se coibiu de afirmar que até sair de Primeiro-ministro o Banif “estava a dar lucro”. Disse-o sem se rir e sem corar, tentando escamotear a realidade, ou seja, que o problema, já antigo, deste banco nunca foi encarado frontalmente, tendo o governo optado por uma gestão política e eleitoral do mesmo que, naturalmente, aumentou os encargos para os contribuintes, isto é, para todos nós.

A questão da TAP é outra história mal contada porque toda a gente sabe que em Novembro passado o grupo chinês adquiriu uma posição na empresa de um dos novos sócios da transportadora portuguesa. Aliás, no anterior governo chegou a apontar-se a China como um destino prioritário para o desenvolvimento da rede de longo curso da TAP… É por essas e por outras que não se entende o aparecimento, agora, de algumas virgens púdicas…

Habituámo-nos, mal direi eu, a este tipo de jogos florais, com discursos oportunistas e frequentemente sem correspondência com a realidade. Com a maior desfaçatez dizem uma coisa quando estão no poder e o seu contrário quando na oposição. É a ânsia de protagonismo, umas vezes para tentar chegar ao poder, outras simplesmente para o manter. E aqui, mais uma vez, a cultura portuguesa mostra ser bastante rica no que concerne a ditados populares: “quem não aparece, esquece; mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece”. Ou seja, a sabedoria popular não deixa os seus créditos por mãos alheias: tem também um ditado para que o povo possa dizer, de uma forma simpática, que está farto de certos figurões.

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