Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Populismos e Custos

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Populismos e Custos

Ideias

2020-11-20 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Numa dessas mensagens que por agora passamos o tempo todo a receber, sem que saibamos bem de onde ou de quem, chegou-me a referência a esta citação de Einstein, escrita por 1950, aqui numa tradução livre: “O ser humano é uma parte do todo, por nós denominado “Universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como algo separado do resto - uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas de nós. A nossa tarefa deve ser libertar-nos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão para abraçar todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza. Ninguém é capaz de alcançar isso completamente, mas o esforço por essa conquista é em si uma parte da libertação e uma base para a segurança interior”. Aparentemente, há algum debate à volta da exata formulação desta citação, mas na verdade, a mensagem não é alterada.

Por estes tempos estranhos, difíceis e desafiantes, este texto de Einstein quase coloca tudo em perspetiva. Os custos económicos da pandemia são enormes, e não vão desaparecer por efeitos de uma mágica qualquer financeira. Mas continuam a ver-se pessoas sem máscaras, orgulhosamente afirmando nas redes sociais que nunca as colocarão, supostamente numa afirmação pessoal de mais inteligência que os demais, continuam a ler-se negações apaixonadas da mera existência do vírus, envoltas em estranhas teorias de conspiração a nível global, continuam a ouvir-se histórias de festas e participação em manifestações, sem qualquer cuidado. Acho que todas essas pessoas deviam ser incentivadas a testar as suas teses, colaborando ativamente no meio hospitalar…

Entretanto, o populismo vai continuando a fazer o seu percurso. Na União Europeia, a Hungria e a Polónia bloquearam esta semana a aprovação do pacote financeiro de apoio à recuperação económica por causa da pandemia, uma espécie de Plano Marshall. Sem a unanimidade necessária, a Comissão Europeia não poderá emitir dívida para a constituição do fundo, no valor de 750 mil milhões de euros. E bloquearam porque no acordo constava uma cláusula sobre a criação de um mecanismo sobre o Estado de Direito, fechado entre o Conselho e o Parlamento Europeu. A questão é que estes países estão submetidos a processos, em 2017 e em 2018, por possível violação dos valores da União Europeia, o que poderá eventualmente suspender a receção de fundos comunitários. Na Hungria, por exemplo, desde a eleição de Orbán que tem vindo a ser seguida uma via nacionalista e autoritária, explorando nomeadamente a crise dos refugiados para reforçar o apoio popular. Na Polónia, as forças eurocéticas têm também tido sucesso numa linha perto dos EUA, de “colocar a Polónia primeiro”, prometendo implementar políticas económicas populistas. Pelo caminho, vai ficando uma demonização das políticas democráticas e das instituições comunitárias.

Apesar dos resultados eleitorais recentes nos EUA, é certo que as políticas e os governos populistas ganharam muito espaço nesta última década. EUA, Brasil, Polónia, Hungria, Turquia, Reino Unido são exemplos. Um artigo que acaba mesmo de ser divulgado, de Funke, Schularick e Trebesch, vem tentar responder a esta questão: vale a pena? Ou seja, políticas populistas permitem que as economias funcionem melhor? Sejam mais eficientes? Os países cresçam mais?
Claro que estas questões não são novas. Também na política há modas , e lá pelos anos 60 e 70 também se passou por isso, resultando em booms a curto prazo, com base em políticas fiscais expansionistas, que descambaram em graves crises económicas, fortes quebras nos rendimentos per capita, a que se sucederam crises políticas. Bom, mas vamos para os finalmente.

O estudo é muito interessante, e detalhado. E conclui que no médio e longo prazo, todos os países, e foram muitos que optaram por políticas populistas desde o início do séc. XX, registaram perdas substanciais no PIB real e no consumo. Para além disso, o funcionamento das instituições piorou, prejudicando o ambiente global de incentivo à inovação. E claro, a democracia, alterando no percurso “as regras do jogo”.
Uma opção é não acreditar em nada destes resultados, e acreditar que a versão A ou B de uma estratégia qualquer populista se justifica. Porque sim. Mas a ciência alerta para os custos de pagar para ver.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho