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Por Terras de Sombra e Sombras

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2020-07-08 às 06h00

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Autor: Ana Leonor Rebelo da Silva Godinho

Era janeiro. O sol de inverno brilhava no azul do céu e daí de cima acompanhava os passos de um homem por um trilho sem viva-alma e perdido no encanto das montanhas galegas. Após uns quilómetros, o homem avistou uma povoação colada no sopé de uma montanha quase encoberta por carvalhos e pinheiros imponentes. Chegou à entrada da pequena aldeia, entregue a um silêncio e solidão familiar. Atravessou a ponte por onde corria a água vinda do coração das montanhas e os seus passos levaram-no para junto dessas casitas de pedra fechadas, abandonadas ou em ruínas. Algumas portas de madeira pareciam ter sido esventradas por machados e dentro dessas casas havia uma cratera funda no chão. Depois ficou estático em frente de uma casa, que tinha um varandim em ferro forjado, e viu um ninho de morcegos dependurado.

Andou mais um pouco e foi ter à capela da aldeia. Reparou logo no trilho que havia atrás e que descia para lugar incerto. O homem viu uma sombra gigante e umas sombras mais pequenas a subirem o caminho e a aproximarem-se, enquanto o vento empurrava até si uns gritos aterradores e familiares. Sentou-se no átrio da capela, onde os aldeãos se sentaram ali muitas vezes para discutir assuntos do interesse da comunidade. O homem ficou pensativo e levantou-se. Dali da capela, ele via a Fonte Fria transmontana a olhar para a aldeia. Em seguida, picado por um mau pressentimento, voltou-se para trás e sentiu um arrepio ao ver a Sombra a instalar-se e as pequenas sombras a saírem de vários recantos e buracos. Afastou-se rapidamente e procurou refúgio naquela casita de pedra com o varandim e o ninho de morcegos. Forçou a entrada, subiu até ao quarto e adormeceu debaixo da cama.

A meio da noite o homem acordou sobressaltado. Chegou-se à janela e viu, através dos olhos de um rapazinho pequeno, um grupo de homens que tinha regressado das minas de carvão. Nesse momento e sem explicação, o rapazinho sentiu puro medo e enfiou-se na cama a tremer. No dia seguinte, esses mineiros e as suas famílias não saíram das suas casas. As portadas e janelas estavam bem fechadas e do interior vinha um silêncio tumular. Os outros aldeãos estranharam esse comportamento e bateram nessas portas várias vezes, enquanto o dia durou, mas ninguém apareceu ou respondeu do interior.

Veio outra noite e no silêncio da montanha ouviam-se barulhos e gritos terríficos. O rapazinho aproximou-se da janela do seu quarto cheio de receio e à luz do luar viu os mineiros a atacar o gado como se fossem feras selvagens. Apesar de estar às escuras, um desses homens viu que ele os estava a observar da janela e com uma movimentação de bicho rápido e estranho dirigiu-se para a casa do rapaz. O rapazinho escondeu-se debaixo da cama aterrorizado, enquanto ouvia uns passos pesados a rondar a casa. Nisto, os morcegos que viviam no ninho colocado no varandim da sua casa, começaram a emitir sons e o homem começou a gritar perturbado. O rapaz foi espreitar à janela e viu o mineiro a afastar-se com as mãos a tapar os ouvidos.

O rapaz foi acordar o pai e contou-lhe o que tinha visto. Na manhã seguinte, o pai, o rapaz e os poucos homens da aldeia que não ficaram presos nas minas reuniram-se na capela e decidiram averiguar o que se passava. Armados com o que tinham à mão, pegaram em forquilhas, machados, picaretas e pás, e foram em direção às casas dos mineiros. O seu pai e os outros homens arremessaram os machados contra as portas e com um pontapé forte entraram à força. Depararam-se com um cenário macabro. Os mineiros, as mulheres e as crianças tinham desaparecido, mas havia muitos vestígios de sangue. No meio do chão de cada casa havia um buraco grande escavado na terra, por onde saía um cheiro pútrido e de decomposição. Os homens ficaram muito transtornados e benzeram-se, pois acreditavam que aí era a toca onde o mal vivia e se escondia.

Nessa mesma noite, os aldeãos estavam decididos a erradicar o mal sem rosto que tomou conta da sua povoação. Armados e com candeias para iluminar a escuridão, sacrificaram um animal, dividiram-se em grupos e foram em direção às casas. Cada grupo levava um pedaço de carne fresca e muito vermelha na ponta de uma forquilha e apontavam-na para a entrada desses buracos com o intuito de atrair o mal. Não demorou muito para que vissem um dos mineiros a sair do buraco a rastejar, sedento de carne e sangue, e tão transfigurado que nem parecia um ser deste mundo. O pai do rapaz e os outros homens, cientes do triste fim das mulheres e das crianças, caçaram e abateram as criaturas.

Ao raiar da aurora, empilharam os corpos e levaram-nos por aquele que ficou conhecido na sua memória como o “trilho dos mortos” para serem queimados e enterrados em parte incerta. No fim, reuniram-se na capela onde decidiram abandonar a aldeia para sempre e recomeçar uma nova vida longe desse lugar amaldiçoado. Eles temiam que o mal que consumiu aqueles homens dentro das minas os apanhasse também. Então juraram entre si esquecer esse lugar e a sua história, pegaram nos seus pertences e desertaram dali.

O homem acordou dessa memória com a certeza de que ele era aquele rapazinho. Entretanto esse pensamento foi interrompido por umas vozes que vinham do exterior. Chegou-se à janela, viu um casal e ficou a observá-los apreensivo. A rapariga e o rapaz estavam sentados no átrio da capela e próximos do “trilho dos mortos”. O tempo acelerou, o sol enfraqueceu, e a Sombra e as pequenas sombras espreitavam de vários recantos e avançavam ávidas em direção ao casal. O homem decidiu ir avisá-los de que deveriam abandonar este lugar e retornarem a casa, antes que fosse demasiado tarde. Aproximou-se do casal, falou, mas eles trataram-no como se ele fosse invisível. Foi então que se apercebeu que era um espírito que retornou ao lugar onde nasceu por se ter esquecido das suas origens. O seu vulto tocou na rapariga, mostrou-lhe a vida áurea daquela povoação até ao seu declínio e passou-lhe o seu testemunho. Ele tinha de ser o guardião deste lugar e impedir que a Sombra e as pequenas sombras arrastassem mais inocentes para a escuridão.

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