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Por um mundo melhor

Ideias

2019-12-31 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Na mensagem de Natal deste ano, o Papa denunciou as actividades "de grupos extremistas" no continente africano, em particular no Burkina Faso, no Mali, no Níger e na Nigéria, manifestando também grande preocupação com a situação na Síria, no Líbano, no Iémen, no Iraque e em alguns países do continente americano, como a Venezuela, ou seja, em todos os pontos do globo onde acontecem "violências, calamidades naturais ou emergências de saúde".
O Pontífice não esqueceu aqueles "que são perseguidos por causa da sua fé religiosa, especialmente os missionários e os fiéis sequestrados", aos quais manifestou toda a sua solidariedade, apelando também à comunidade internacional para “garantir a segurança” no Médio Oriente, em particular no território sírio. Mas a mensagem mais forte, provavelmente aquela que encerra maior grau de dureza, tem a ver com a acérrima e justa defesa dos migrantes.

Com a autoridade moral que lhe é consensualmente reconhecida, o Papa manifestou enorme preocupação por todos aqueles que, face a injustiças de vária ordem, se veem obrigados a emigrar em busca de uma vida melhor e mais segura e, de um modo geral, por quantos são vítimas de convulsões sociais e políticas. A mensagem natalícia do Sumo Pontífice procurou, assim, dar esperança a “toda a humanidade ferida”.
“É a injustiça que os obriga a atravessar desertos e mares, transformados em cemitérios”, denunciou, acrescentando que “é a injustiça que os obriga a suportar abusos indescritíveis, escravidões de todo o género e torturas em campos de detenção desumanos”. E é essa mesma iniquidade que, conforme também alertou, “os repele de lugares onde poderiam ter a esperança duma vida digna e lhes faz encontrar muros de indiferença”.
A crise migratória que assola a Europa desde há alguns anos constitui, de facto, uma seta apontada aos responsáveis políticos, àqueles que em Bruxelas e nas principais capitais europeias não se mostram capazes de acabar com a autêntica chacina que transforma as águas do Mediterrâneo num verdadeiro cemitério.

Os números oficiais são assustadores: as mortes de migrantes irregulares no Mediterrâneo totalizaram 1071 nos primeiros dez meses de 2019. Claro que estes dados, revelados pela Organização Internacional das Migrações (OIM), pecarão por defeito já que têm por base apenas as mortes registadas. Mas todos reconhecerão que para além dos óbitos informados e documentados, “muito mais mortes provavelmente ocorrem do que aquelas que são registadas", conforme também sublinha o Projeto "Migrantes Desaparecidos", vinculado à OIM.
Os dados disponibilizados pela organização alertam, aliás, para o agravamento das condições que os imigrantes enfrentam nas viagens rumo ao sonho de uma vida melhor, patente de resto no aumento da taxa de mortalidade (o número de mortes em relação às tentativas de atravessar). Segundo a OIM, no ano que hoje termina, uma em cada 28 pessoas que tentaram a travessia morreu, enquanto em 2018 a taxa de mortalidade foi de uma em cada 32 tentativas.

Apesar desta catástrofe, a esmagadora maioria dos imigrantes que cruzam o Mediterrâneo para entrar de forma irregular na Europa voltariam a fazê-lo, refere um estudo das Nações Unidas (ONU). Apenas dois por cento das quase 2.000 pessoas entrevistadas reconheceu que não teria saído do seu país de origem se conhecesse os riscos que corria.
O estudo em causa, desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com o objetivo de conhecer as motivações dos africanos que decidem emigrar para a Europa de forma irregular, foi elaborado a partir de depoimentos de 1970 pessoas de 39 países africanos que actualmente residem em 13 países europeus e que não buscam asilo ou protecção, mas que migraram por outros motivos.

A partir deste estudo, fácil se torna concluir que grande parte do problema tem de ser resolvido na origem, até porque a migração está a deixar o continente africano sem pessoas com maiores aspirações, ou seja as que beneficiaram dos progressos de desenvolvimento das últimas décadas. Será também por essa razão que os especialistas do PNUD fizeram um conjunto de recomendações, entre as quais assume particular relevância o aumento de oportunidades em África, concedendo mais poder aos jovens para decidirem o caminho dos países ou criarem economias mais inclusivas.
Acredito e tenho a expectativa de que o grito de alerta do Papa Francisco seja também - tem de ser - o grito de revolta de toda a humanidade, particularmente dos homens e mulheres que estão saturados de conviver com as sucessivas carnificinas, quer aqui ao lado, no Mediterrâneo, quer em outro qualquer ponto do globo.

“Que o Emmanuel seja luz para toda a humanidade ferida”, pediu o Papa antes de lançar um apelo lancinante para que “enterneça o nosso coração, frequentemente endurecido e egoísta, e nos torne instrumentos do seu amor.” Se assim for, se a transformação se consumar, conforme pede o Papa, não só acabaremos com o triste cemitério do Mediterrâneo como caminharemos para um mundo bastante melhor. São esses os meus votos para 2020!

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