Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Porque me deixaram partir

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Conta o Leitor

2015-07-23 às 06h00

Escritor

André Filipe Sousa Araújo

(Àqueles que me viram partir)
A sentença tinha sido dada, já nada se podia fazer. Era Dezembro, de qual ano, já nem me recordo eu, será por medo, vingança ou esquecimento, outrora ainda me recordava, mas hoje, já se varreu da minha memória.

Aquela era a casa, pequena, mas a casa que me escolhera, que me acolhera e, que me ajudara, mas naquele dia já nada mais era, porque tudo estava consumado. Depois de sair do gabinete da sentença, o meu rosto parecia a cascata, que eu uma vez vi enquanto passeava com aqueles que me viram partir. Não é um erro, nem um mito é a pura realidade. O caminho traçado com longas pedras, com um telhado floreado tinha desabado e, agora restam-me as memórias.

O Pranto de dor, recheado de lágrimas, mostrava a minha condição miserável e frágil. Aquele terá sido o primeiro dia do resto de toda a minha vida. Num mês de Setembro passado, eu entrara pela primeira vez naquela pequena casa, eu ia carregado, como o pedinte que ela consigo às costas a sua casa, assim fui eu, com a minha casa as costas, nesse mês de Setembro foi o início, mas naquele mês de Dezembro foi o fim de algo que começara. Traçado no meu caminho estavam escadas, que naquele dia mais pareciam um monte que eu nunca esperava subir.

Cá fora, esperava uma longa luta, comigo e, com aqueles de quem eu esperava que fossem mais do que meras estátuas. Numa determinada altura, enquanto subia aquele monte, aparece o pedinte, que me pede ajuda, esse pedinte era só mais um que me vira partir, mas que na sua humilde condição reparou no meu pranto, mas nada fez porque eu corri.

Cheguei a essa casa e, com medo e dor voltei a descer o monte, mas de nada adiantou, porque Nada está ganho nem perdido, se fosse só em verbo seria 'Ter', por isso não sejamos gramáticos, nem poetas, apenas sejamos verdadeiro homens que naquele pranto souberam olhar para mim e interpretar a minha história, foram eles, aqueles que me viram partir que sabiam o motivo do meu pranto, mas sou homem, fraco, pobre e desvalido, que caído na valeta daquele imenso campo, mergulhei em imensas lágrimas, e lá deixei as minhas.

Lágrimas essas, que perdidas, tristes e afastadas dos meus pequenos olhos, que ao longe vislumbravam a verdade, porque os sentimentos, só o poeta é que os tens. Eu não sou poeta, sou homem que sente. E, nas lágrimas da noite que imagino naquele campo, penetro em mim e, fecho os meus olhos, recordando aquilo que vivi, aventuras, lutas e choros, mas não posso 'ter' aquilo que nunca virei a ter, porque são apenas tristes sentimentos de quem, nunca viu, e nunca irá ver e terminará sem ver.

Todos nós somos portas e amar todos pudemos, mas sermos amados e queridos nem todos. Nunca nos conseguimos repor da dor, que foi provocada por uma roseira sem rosas neste caminho, nunca podemos deixar de ser sentidos pelos outros. Neste caminho há pedras e perdedores. As pedras podemos pisa-las e até afasta-las e os perdedores podemos acolhe-los e ajuda-los para que se possam sentir amados. Neste caminho, eu fui a pedra, chutada por todos e, aqueles que me viram partir, sentiram-se magoados e fragilizados, mas cada dia que passa, desde aquele acontecimento, é como que, pisar a água, sabemos onde ela está, mas não sabemos como a evitar! Na loucura daquele dia, restou-me ficar naquela casa, no final daquele monte.

O tempo parou para um, mas para outros continuou e, daquele momento nada mais me causa um novo pranto de que ver que, aqueles que me viram partir também sofreram. Guardei a dor no meu coração, e permaneci calado, como quem fica perdido no manto de dor que se deita, transpareço alegria e felicidade, mas sempre que o meu olhar se cruza com aqueles que me viram partir, cai-me a esperança de os poder viver como os vivi, agora, restam-me os quadros, pintados com as alegrias e tristezas, que naquela pequena casa eu vivi.

Por fim, percorri então vários caminhos na tentativa de entender o que posso ser, mas sempre encontrava novas pedras e, naquela praia, cujo nunca falei, apenas ao meu pranto, naquela casa, fica longe o lugar onde tenho de chegar, porque sobre mim levo a dura sentença que daquele olhar saiu, porém, fica aquela luz, que me levou mais longe ao encontro daqueles que, na sua simplicidade me viram partir, porque é mais fácil entrar com uma saudação, do que sair com o pranto de tristeza, não no rosto, mas no coração e, àqueles que me viram partir, carrego-os no meu coração, onde cada dia é um novo pranto.

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