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Portugal de pernas para o ar!

Ideias

2016-03-04 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

O jornal ‘O Público’ de ontem noticiava que uma investigadora científica havia manipulado os dados de modo a obter os resultados que lhe convinha. E como consequência fora-lhe retirada a bolsa de 50.000 Euros anuais. A notícia está a ser lida como um escândalo pela comunidade científica. Mas não é nada de admirar. A banca é o que se sabe, graça a corrução entre os políticos e até na instituição judicial existem casos de compra e venda de decisões e um magistrado está preso.

Este fenómeno no meio académico e de investigação científica prende-se com o processo de avaliação que fundamenta a subida na carreira. Importou-se para Portugal um modelo que assenta o sucesso dos concursos quase totalmente na investigação científica; e esta é medida pelo número de publicações e seu impacto. O modelo até pode ser considerado acertado, até porque tornou mais objetivo o resultado dos concursos, evita o compadrio e a endogamia.

Na verdade, porém, os professores universitários são racionais e ajustaram o seu comportamento ao novo modelo. Começaram a multiplicar as suas publicações, repetindo-as com pequenas variações. Desta forma, aumentavam a sua cotação no mercado científico e a probabilidade de subirem na carreira e ganharem mais e melhores projetos. Mas como as pessoas não são máquinas e há muito poucos génios, começaram a apropriar-se dos trabalhos dos seus orientados de Mestrado e Doutoramento. Assiste-se então a um fenómeno de carjacking intelectual.

Conheço casos de estudantes que viram o seu trabalho apresentado em conferências e publicado sem desconhecimento dos orientados e com o nome apenas dos orientadores. Os alunos calam-se porque sabendo como funcionam as universidades, terão muita dificuldade em acabarem os seus doutoramentos. São fenómenos da alçada do direito criminal em que as vítimas são forçadas a calarem-se. Felizmente não é em todas as áreas.

Um dos danos colaterais deste novo modelo de avaliação, baseado nos chamados fatores de impacto, tem sido a degradação pedagógica. Se o que conta para a subida na carreira e para o prestígio intelectual é quase só as publicações, então porque preocupar-se com os alunos e preparar as aulas. Esquecem-se que os salários dos professores são pagos pelos alunos através de propinas, taxas e impostos.

Claro que o que estou a dizer é por demais evidente. E é por isso que as universidades de topo estão a alterar o seu modelo de recrutamento e de avaliação.
Os candidatos são convidados a dar uma aula e a indicar dois ou três dos seus artigos que consideram mais relevantes para a área científica em que se situa o concurso. Por outro lado, os júris integram professores doutras áreas.
O critério de seleção assenta no contrito original que fizeram para a área científica, o impacto do seu contributo e a forma como transmitem os seus conhecimento, demonstrada na aula.

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