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Porque os livros importam: “Cá Dentro – O Lugar da Escola Nos Nossos Miúdos” de Rui Correia

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Porque os livros importam: “Cá Dentro  – O Lugar da Escola Nos Nossos Miúdos” de Rui Correia

Escreve quem sabe

2021-09-15 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Eassim iniciamos mais um ano letivo!Tempo agora de carregar a nossa mochila e rumar à escola. Está quase, quase... e a ansiedade é enorme! Os manuais do novo ano e os cadernos a estrear! Lápis aguçadinhos e borrachas limpas! E a mochila onde tudo será bem acomodado e que, quando às costas, nos faz parecer maiores, crescidos, como se de junho a setembro a vida desse um salto: qualitativo, claro está, e muitas vezes quantitativo, sim.
E é desta mochila que Rui Correia nos fala. Dela e de todo o material que lá cabe: a cola, o estojo, a calculadora, a régua, o compasso, o marcador, o transferidor, a borracha, o corretor, o lápis e a caneta. A mochila que apresenta é magnífica: a mochila dos estudantes, e não dos alunos, porque estudantes aproxima-nos (somos todos), é um conceito que salta distâncias e nos aproxima uns dos outros. Começa pela cola, o coração como preâmbulo, referindo que cada um de nós, educadores, é um educador do coração.
“Em cada um dos nossos lugares, das nossas horas, existe um coração que espera por ser reconhecido, acolhido e musculado”, com o indispensável humor, riso, amabilidade e solidariedade, tal como com aflição, dor, sofrimento e injustiça. “Um coração quer-se completo e não mutilado do que lhe faz mal.”
Assim é Cá Dentro – alfabetizadores de um coração integral, porque sabedores também das aflições, dores, sofrimentos e injustiças que muitos dos nossos estudantes apresentam, e que com humor riso, amabilidade e solidariedade, reconheceremos, acolheremos e muscularemos os corações de todos e de cada um, incluindo o nosso.
“Por sermos pessoas de coração. Colados aos outros.” Tendo então como preâmbulo o coração, ou seja, a cola, atentemos na mochila: a pegada ambiental do aluno. A sua biografia. A sua identidade. Conhecê-lo nas suas famílias, nos seus locais de lazer e nos diversos contextos escolares. Conhecer a sua excecionalidade. “O lugar que a escola ocupa nos nossos miúdos é determinado pela forma como ela soube hospedar a sua excecionalidade. Ou lapida esse diamante ou dilapida-o.” Brilhante... e não estou a referir-me ao diamante, não! Mas à hospeda- gem da excecionalidade. Quem hospeda acolhe tal qual é. Quere-o tal qual é. “A sua mochila emocional. A sua bagagem afetiva. O seu recheio intelectual. (...) E o peso destas mochilas produz as mais sinuosas e severas escolioses psicológicas. Miúdos com uma auto-estima baixíssima, que travam batalhas secretas que, só pela rama, são conhecidos pelas escolas e pelos professores. Estes são, justamente, os miúdos que são confrontados com a premência de apresentarem um desempenho escolar compatível com um “perfil dos alunos”, que, por tantos querer incluir, acaba por não incluir nada nem ninguém em particular.” Por isso, é necessário que saibamos, minuciosamente, a cor de cada mochila, o peso que transporta, as linhas que a sustentam, (não vá romper-se na nossa frente), e acima de tudo, o que acolhe lá dentro.
Cá Dentro! Estojo – inclusão e empatia: “O professor tem de dirigir-se a todos os estudantes. E é este o seu desafio. (...) Todos cabem no seu estojo de escola. Cada um com o seu lugar e função. Não excluir ninguém. Não deixar ninguém para trás. Por nenhuma razão.” E o estojo desta mochila, a do aluno, é único. É aquele!
Calculadora – os pais e as notas: “Enquanto andamos todos neste transe de notas, esquecemo-nos do que mais releva em educação: aprender coisas.”
Régua – mensurolatria: “Um sistema de ensino obriga- tório tem de pautar-se por promover o acesso ao conhecimento, e não o acesso à universidade. (...) São aos milhões as aulas criativas que não se dão, os projetos estimulantes que se rejeitam, porque não há tempo para ‘dar a matéria’...”
Compasso – ser educador é ser culto: “Atrás de um miúdo que teima em não aprender, subjaz uma oportunidade de desvendar a forma como essa criança deseja aprender. (...) É indispensável recuperar esta vantagem óbvia que resulta de se saber coisas. E publicitá-la. E celebrá-la. Os nossos miúdos têm de conhecer as benesses reais, pragmáticas, que resultam de não serem ignorantes.”
Marcador – chamar à desatenção: “A distração é tão importante no processo de aprendizagem como a pontuação numa frase. É necessário parar de vez em quando. Respirar. Uma aula precisa de vírgulas, de pontos finais e, sobretudo, de reticências. (...) É preciso que haja momen- tos de não informação.(...) Na verdade, o inimigo não é a distração; o inimigo é a passividade.” Transferidor – atavios de aula: “Trata-se do feedback que os estudantes proporcionam aos professores. (...) Todos sabem que raro será o estudante que levantará a mão para reconhecer que não percebeu nada do que ouviu, (...) porque ninguém gosta de admitir publicamente que não entendeu”.
Borracha – o benefício da dúvida: “Uma escola foi construída com o propósito maiúsculo de permitir que ali se duvide e se erre todos os dias, a cada hora e a cada instante. (...) O que não pode acontecer é um estudante ter a noção de que o seu erro não é bem vindo dentro de uma sala de aula.”
Corretor – a ecologia das vocações: “Dêem-lhes arte, obriguem-nos ao pensamento crítico, imponham obra em vez de conversa, mais laboratório e menos púlpito, mais exegese mediática e menos reprodução indolente, menos exames e mais viagens, mais Antiguidade e menos frivolidade, produzam instâncias de criatividade e de ação e verão o que os estudantes farão pelo nosso país, pelo nosso mundo. Farão o que todos desejamos que façam: serem bem melhores do que nós somos.”
Lápis – vidas por escrito: “Chega a ser uma forma de delinquência institucional esta altercação que se opera entre a vida real do jovem e a vida escolar do aluno. (...) A forma mais eloquente de documentar esta vida dupla em que, as mais das vezes, se movimentam os nossos estudantes é escutar os seus testemunhos. Ouvi-los sem julgamento ou interpretação.”
Caneta – a ingenuidade como epílogo: “A nascente da ingenuidade de cada um de nós é o espaço onde podemos encontrar a oportunidade para a surpresa. Para o desconforto. Para o conhecimento. Para o “querer saber”. (...) Não é aceitável que um professor seja desinteressante.”!
Obrigada Rui Correia!

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