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Porque os livros importam: “Como um romance” de Daniel Pennac

Os amigos de Mariana (1ª parte)

Porque os livros importam: “Como um romance” de Daniel Pennac

Escreve quem sabe

2022-03-01 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Comecei a pensar neste texto, angustiada, de coração pequenino, tentando perceber como escrever sobre algo, que não a invasão da Ucrânia. Impotência, profunda tristeza, solidão, revolta,... Tenho em pano de fundo enquanto escrevo Nuno Rogeiro no seu programa Leste/Oeste. E nas mãos, o livro de Daniel Pennac. “Como um romance” – uma abordagem despretensiosa e divertida sobre a leitura, um fenómeno impactante que iniciou em França em 1993. Tem quase 30 anos... e ainda não chegou a todos os cantos do nosso país. Já aqui tenho refletido, e sobre os dez direitos inalienáveis do leitor, que de algum modo traduzem o meu atual estado de espírito: a alienação provoca invasão e destrói qualquer direito. Assim é a leitura e o modus operandi dos professores quando abordam as obras como se se tratassem de um problema de investigação.
Pennac transcreve Flannery O’Connor no dia em que soube que os alunos eram interrogados acerca da sua obra: “Se hoje em dia os professores têm como princípio abordar uma obra como se se tratasse de um problema de investigação, ... receio que os alunos nunca descubram o prazer de ler um romance.” Voltando atrás no tempo, no tempo em que os filhos ainda não liam romances porque não se tinham apropriado do processo de descodificação das palavras, ou entrando numa sala de jardim de infância onde e educadora lê, em voz alta, tal como o pai e a mãe à mesa de cabeceira, as preocupações sobre os resultados da leitura não existiam. “Nunca, nunca se preocuparam em saber se ele tinha compreendido que a Bela Adormecida dormia no bosque porque se tinha picado numa roca e a Branca de Neve porque tinha trincado a maçã. (Das primeiras vezes, aliás, não tinha de facto compreendido. Tudo era maravilha, lindas palavras, emoção!
Esperava com enorme atenção pelo episódio preferido que, quando chegava, recitava para si próprio; e pouco a pouco ele ia compreendendo tudo, absolutamente tudo, mesmo quando os episódios eram mais obscuros, quando os mistérios se adensavam; sabia perfeitamente que a Bela Adormecida dormia porque se tinha picado na roca, e a Branca de Neve dormia porque tinha trincado a maçã...)”. Antes éramos contadores, agora somos contabilistas. – lê por favor só quinze linhas, se não, não há televisão!! E termina dizendo: “A televisão elevada à dignidade de recompensa... e como corolário, a leitura considerada como trabalho forçado... descobrimos a pólvora... “. Enfim... e a “idiotice das descobertas pedagógicas que se elaboram contra o desejo de aprender”. Porque é deste prazer que o livro fala. Um prazer tão próximo. “Tão fácil de encontrar. Basta não deixar passar vários anos. Basta esperar pelo cair da noite, abrir novamente a porta do seu quarto, sentarmo-nos à sua cabeceira e retomarmos a leitura comum. Ler. Em voz alta, gratuitamente.”
Na sala de aula também. Mas não fazemos perguntas. Nem uma! “Fichas de leitura”??? Que bela maneira de “estragar” o livro em que se pegou, na biblioteca da escola. As palavras vão pesar chumbo, vão dar trabalho, sem alegria. “Lê como quem caminha. É o dever que o impulsiona.” Não posso deixar de transcrever o que encontrei na página 71: “... o que tu queres é que eles te entreguem boas fichas de leitura acerca dos romances que tu lhes impões, que eles interpretem corretamente os poemas que tu escolheste, que no exame final analisem com elegância os textos da tua lista, que «comentem» judiciosamente ou «resumam» inteligentemente o que o examinador lhes pôs debaixo dos olhos naquela manhã... Mas na realidade, o que o examinador, tu e os pais querem, não é que as crianças leiam. Mas também não querem o contrário, repara. O que querem é que os miúdos tenham boas notas, e nada mais”.
Não há espaço para o prazer de ler. Ironicamente Pennac fala do conhecimento como algo que apenas é fruto de um sofrimento aceite e implementado nos programas escolares, desprovido de qualquer prazer, resumidamente inscrito em três palavras: É preciso ler! Seguem-se páginas lindíssimas sobre o jugo de “dar a ler”, para terminar na apresentação dos dez direitos inalienáveis do leitor.
1) o direito de não ler;
2) o direito de saltar páginas;
3) o direito de não acabar um livro;
4) o direito de reler;
5) o direito de ler não importa o quê;
6) o direito de amar os “heróis” dos romances;
7) o direito de ler não importa onde;
8) o direito de saltar de livro em livro;
9) o direito de ler em voz alta;
10) o direito de não falar do que se leu.
Acabei de terminar este texto, angustiada, de coração pequenino, tentando perceber como escrever sobre algo, que não a invasão da Ucrânia. Impotência, profunda tristeza, solidão, revolta,...

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