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Porque os livros importam: ‘Diário’ de Sebastião da Gama

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Porque os livros importam: ‘Diário’ de Sebastião da Gama

Escreve quem sabe

2021-10-12 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

A11 de janeiro de 1949 Sebastião da Gama inicia o seu estágio pedagógico na Escola Comercial de Veiga Beirão, em Lisboa, iniciando a escrita deste “Diário” como trabalho de estágio. Lecionava Português e deixou neste “Diário” reflexões lindíssimas dos seus alunos (na altura só tinha rapazes). 1949. Cruzei-me com este livro, há um mês, requisitando-o na Biblioteca Pública, após uma reunião do meu grupo disciplinar (Educação Especial), por sugestão de um colega. A ele (Vitor Tété), o meu agradecimento pelo desafio que lançou. 1949. Ainda me emociono sabendo que Sebastião da Gama morreu precocemente aos 27 anos, com uma tuberculose renal, deixando-nos este livro, entre muitos outros, “Pequena História do meu Estágio de Português”, editado com o título "Diário". Poeta e professor, “Diário” está recheado de pequenos tesouros de uma excecional relação pedagógica. 1949. Tenho que repetir freneticamente. 1949. 1949. 1949. Poderia escrever 1978, 1984, 1993, 2001, 2013, 2019, 2021, 12 de Outubro de 2021, e … 2026, 2034, 2059, …(as datas são perfeitamente aleatórias) … Mas não, foi escrito, em 1949. Começou a 11 de janeiro de 1949. Assim: “… vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e vem a propósito, ir ensinando” e terminou esse dia “O que eu quero principalmente é que vivam felizes”. Nem mais…. 1949! No sumário deste primeiro dia escreveu: “Conversa amena com os rapazes”, tendo pedido apenas a todos: lealdade, e introduzindo apenas duas regras: “a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela”. A importância da primeira aula - a aula onde o professor coloca as suas regras (há salas onde as regras são verdadeiros tratados de alíneas, que quando vamos a meio da folha já esquecemos as regras cimeiras) e onde a “conversa amena” nem chega a existir. Que linda maneira de cumprir (sim, eu, só obrigada) com um teste diagnóstico: conversa amena. Quanto Sebastião não retirou, quanto não diagnosticou por certo, nesta “conversa amena”! 1949? Sim, há 72 anos… ! Seis dias mais tarde, a 17 de janeiro, Sebastião olhando para a varanda da sala 19, a varanda da sua sala de aula de onde se via metade da cidade de Lisboa, revela: “Como queria tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes: «Da varanda da nossa aula»...O que eles escrevessem servia para ver como escreviam, como viam e como imaginavam.” Simples, não é? Mas em tão simples tarefa percebemos tanto: como escrevem, como veem, como imaginam… 1949! Mas a frase seguinte, vem cheia de significado: "Os rapazes, feito o honesto barulho de correrem à varanda, atiraram-se à obra”. O honesto barulho! O barulho de quem corre à janela para ver a cidade, as cadeiras desarrumadas que ficam para trás, a corrida para ver quem chega primeiro, os risos e comentários (por certo sonoros) de quem deixa de estar virado para um quadro para ir à varanda, tudo isso não importa. Foi um barulho honesto. Um barulho necessário. Um barulho indiferente para o professor. Não, desculpem. Indiferente não. Cheiinho de significado: um honesto barulho. É delicioso continuar a ler, descobrindo o que estes alunos escreveram sobre o que viram da varanda: “não interessa o que se vê, interessa o que nos impressiona”, terá dito um pequeno aluno, que Sebastião regista. Mas escreve no diário: “Passou-se a aula a ver tudo isto; e a ensinar Português a partir do que estava errado. Mansamente, alegremente,... o objetivo não era encontrar o erro e dar a respetiva palmatoada”. 1949! Quase quase no final do mês de janeiro, os alunos vinham ter com ele, para lerem em voz alta, muito contentes por terem sido chamados. E a fonte de tal contentamento veio de uma simples resposta. À pergunta: “É para nota?”(E havia medo na voz), tinha respondido: “Não. É para aprender.” A avaliação formativa que tanto hoje reclamamos… ! 1949! Já aqui o professor não era avaliador.. era apenas professor - levava a aprender. Mas sobre a avaliação há um pensamento brilhante escrito a 24 de janeiro: “Já tenho notado que é absolutamente justo, perante o caso de um aluno que, no princípio do período, dá uma prova classificada com seis valores, a meio outra com doze e ao fim outra com catorze, passar uma esponja sobre a primeira classificação. Daqui tirei eu uma norma: »Olhar ao presente». É assim que ninguém desanimará, porque um seis - digo-lhes eu -, por vezes, não quer dizer nada. Além de que o número é uma avaliação tão tosca!... “ 1949! Que grande lição de avaliação! E neste dia, a sua reflexão foi longa, concluindo: “Há duas normas a seguir que eu tenho seguido sempre desde que sou professor: a) Ler tudo o que os alunos escrevem; b) Fazer correcção individual, junto do aluno, podendo gastar com isso tantas aulas quantas as necessárias.” 1949! Agora que reescrevo ainda mais me emociono (pela atualidade) com as suas reflexões: “Sempre que posso lerei trechos dos rapazes. Eles pedem, gostam de ouvir o que os companheiros escreveram e é mais estimulante isto do que a competição, a luta pelo primeiro lugar. Em vez da concorrência, haverá a admiração, o entusiasmo, o amor pelo que fazem os que vivem e trabalham connosco. Este é o quadro de honra que eu aprovo; o outro é uma espécie de plataforma de elétrico já cheia: os lugares serão disputados a murro, e a empurrão.” 1949! Um livro onde ressaltam princípios pedagógicos, de pura dádiva, colocando-se sempre em relação, na relação com, tornando-a o epicentro da sua vida de professor. Para além da poesia… Sebastião também era poeta! “Aulas más são as aulas que os rapazes não querem ouvir. Mas então - poderia eu defender-me - que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que, às vezes, a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estar interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui.”
O livro está esgotado… mas existe nas nossas bibliotecas públicas.
Obrigada Vitor Tété!

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