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Porque os livros importam: ‘O que é aprender’ de Olivier Reboul

Os amigos de Mariana (1ª parte)

Porque os livros importam: ‘O que é aprender’ de Olivier Reboul

Escreve quem sabe

2022-01-04 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

“Aprender a ser é a própria fórmula de sageza, cujo fim não é tornarmo-nos mais sábios, mas sim felizes e livres”. Assim introduz Reboul o seu livro “O que é aprender”. Livro este que me acompanha desde 2001, sorvendo cada página, cada ideia, como a um bom chocolate quente se parecesse, no início de cada novo ano. Reboul, Professor de Ciências Humanas de Estrasburgo e especialista em retórica e em Filosofia da Educação, antecipa a escola de hoje, a escola de amanhã, a escola, simplesmente. E que maior ironia do que (re)descobrir o verdadeiro significado de escola. LAZER. Escola significa lazer (do grego, skolé) como aponta Reboul. Marco Neves, sobre este tema, escrevia: “A palavra grega «skhol?» significava algo como «tempo de lazer». Veio a significar também o que se fazia com esse tempo. Ora, o que muitos faziam era conversar - e o que se aprende a conversar!…
As conversas entre quem ensina e quem aprende acabaram por dar origem às escolas… a escola não é só um espaço onde se ouve o professor. É também um espaço onde se brinca e onde se conversa — com o professor, é verdade, mas acima de tudo com os amigos: conversas sérias, conversas parvas, conversas sobre nada, conversas sobre tudo. Conversas onde se aprende muito.” Se perguntássemos a todas as crianças e jovens que frequentam as nossas escolas como a definiriam, teríamos as palavras lazer e conversas nessas descrições?
Gostaria de acreditar que sim. Quino nas suas tiras da Mafalda retrata bem esta temática quando pensamos na escola e na sua finalidade.
Neste livro de Reboul, não mais esqueço o que ele entende por aprendizagem, por ensino, e pela docência. “A aprendizagem distingue-se da informação por implicar a atividade do sujeito e por não ser possível senão através dela”. O professor rebouliano, o “mestre” rebouliano assim definido: ”… é preciso que o mestre tenha competência para ensinar o que não se encontra nos livros”. Reboul põe em questão todos os professores e educadores, que deixaram de ser mestres a partir do momento que o conteúdo e o método do seu ensino estão impressos em qualquer parte. “O “livro do mestre” aboliu o mestre. O professor só o é na medida em que se distancia dos livros e dos manuais. Esta é uma ideia curiosa que nos urge reflectir: quantas vezes o manual é o pilar de todo o nosso trabalho dentro de uma sala de aula?
Quantas vezes o manual se sobrepõe ao processo de ensino-aprendizagem, levando o professor a lutar contra o tempo?
Quantas vezes o manual, único na sala, “uniformiza” os nossos alunos dando a “todos diferentes”, “tudo igual”?
Enfim... o professor será “mestre rebouliano” pelo menos, por tudo quanto acrescenta ao livro: “senão um saber novo, pelo menos uma forma nova de transmitir o saber; pelos exemplos que inventa, pelas perguntas que faz ou que leva os alunos a formular; pelas respostas que dá aos pedidos mais insólitos”.
Na parte final deste livro em que Reboul coloca o ensino ao serviço do aluno, distribui quatro poderes ao professor: disciplina, programação, avaliação e motivação. Disciplina é então entendida como “a ordem, sem a qual não existe nem liberdade, nem justiça, nem criatividade. A ordem não humilha, não pune. A ordem não prova autoridade mas antes competência”. Um outro dos poderes atribuídos ao professor é a programação que se poderia resumir nas suas palavras: “... é ao docente que compete programar, dentro do programa oficial, o seu próprio ensino, adaptá-lo ao nível dos alunos e às suas necessidades. Se, por rotina ou por constrangimento, se limitar a seguir um programa estabelecido de fora, abandona a sua função de docente na mesma medida que se ensinasse sem programa”. Lembro ainda que nos níveis pré-escolares ou nos de pós-graduação mais elevados, a pessoa é mais desenvolvida do que em quaisquer outros níveis do sistema escolar. Porque nestes dois níveis há uma menor institucionalização do trabalho escolar e, portanto, maior flexibilidade para se atender às pessoas ali envolvidas, aos seus interesses e necessidades individuais. Ideia de Maslow a reter.
Relativamente à avaliação, que Sebastião da Gama tão bem nos falou, esta terá que necessariamente estar ao serviço do aluno: deve sublinhar os fracassos mas também os seus êxitos; não deve incidir no indivíduo mas nos seus atos; e a sua finalidade deveria ser a auto-avaliação.
O último poder do professor para Reboul é a motivação que também tem sido alvo, desde Rousseau, de grandes reflexões. “O professor dispõe do poder de encorajar ou desencorajar, de estimular ou de bloquear, de suscitar as perguntas ou de as abafar.”
Reboul deixa-nos um legado: a consciência de quão poderosos somos! Saibamos honrá-lo neste NOVO ANO!

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