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Porque os livros importam...

Os amigos de Mariana (1ª parte)

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Porque os livros importam...

Escreve quem sabe

2022-03-29 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

‘Pode a educação especial deixar de ser especial?’ de James Kauffman e João Lopes...
Revisitei este livro, pela pertinência e atualidade após uma ação inspetiva (nome pomposo para a inspeção escolar) ao meu agrupamento, ação esta direcionada à aplicação do Decreto-Lei 54, que estabelece o regime jurídico da educação inclusiva, e ao facto de me ter sido solicitada ajuda no processo de um aluno (externo ao meu agrupamento) que está ao abrigo deste decreto. Um aluno com necessidades educativas, e que em todo o seu processo não aparece a figura do professor de educação especial, porque não necessita das almejadas medidas adicionais que lhe trariam “direito” a ter um apoio especializado de quem se especializou para o efeito. E este apoio não é apenas ao aluno, mas a todos quantos nele gravitam: pais, professores, pares. Logicamente, relatório técnico-pedagógico incongruente, solicitando a professores do regular, não especializados, respostas que tão bem sabemos não fazerem parte da sua formação nem inicial nem contínua. Não é o Decreto-Lei 54 que está sempre fora de contexto, sublinhe-se. Mas antes, todas as regulamentações e portarias que o vêm operacionalizar: o calcanhar de Aquiles de qualquer nova legislação. Procurei e não encontrei: o professor de educação especial só existe para os alunos com medidas adicionais. Procurei e não encontrei: alunos com medidas adicionais devem estar na sala 60% do tempo (aqui não interessa a qualidade mas sim a quantidade). Procurei e encontrei, infelizmente: o professor de educação especial é um recurso humano específico de apoio à aprendizagem e à inclusão. Passei a ser um recurso. Mas vá… concordemos: um grande recurso. Deixei a mui nobre e linda profissão de professora, aliás, de professora especializada, para ser um simples recurso. E por isso fui reler nova- mente este livro, de 2007, mas de dia para dia mais atual. “Pode a educação especial deixar de ser especial?” E assim aqui deixo algumas frases, como pequenas reflexões, provocações talvez, que urge refletir:
“Ensinar é um ato complexo, que exige formação, treino, especialização e experiência. No caso do ensino especial, as metodologias, as técnicas e os tipos de relação estabelecida com o aluno diferem substancialmente daquilo que é usual no ensino regular, o que significa que os técnicos que lidam com estas crianças têm que ter uma formação específica que não decorre da boa vontade dos professores. Trata-se de uma questão de formação e profissionalismo e nunca de voluntarismo.”
“Um determinado contexto de ensino não é menos nem mais restritivo do que qualquer outro. Tudo depende do que lá se faz, das exigências que coloca e do grau de adequação entre alunos e professores e também entre os alunos.”
”...muitos dos que insistem na individualização do ensino e na diferenciação de estratégias, são ex-professores, que quando o foram nunca o fizeram, e continuam a não ser capazes de o fazer, não por serem incompetentes mas simplesmente porque numa turma de 25 alunos tal não é possível,” e eu acrescento, a toda a hora, em todos os momentos, para todas as aprendizagens.
“A ideia de que basta juntar os alunos sob o mesmo teto para que a inclusão ocorra não parece ter fundamento empírico…”
“É no mínimo estranho que se considere que quem trabalha com autistas, por exemplo, não deva ser conhecedor especializado deste quadro sindromático. É o mesmo que dizer que um médico de clínica geral está perfeitamente habilitado a lidar com problemas do foro cardiológico ou pulmonar e que não terá certamente qualquer problema em realizar cirurgias! Em medicina ninguém aceita tal formulação. Contudo, na educação, isto é considerado normal, razoável e, pior ainda, desejável!”
“A inclusão deveria significar estar envolvido num projeto comum de aprendizagem, mais do que estar sob o mesmo teto.”
“Independentemente do debate, controvérsia e confusão quanto à inclusão, existe um consenso generalizado de que, para muitos (mas não todos) alunos com problemas, é apropriado estarem nas salas de aula, pelo menos uma parte do dia.”
“A educação e ensino de alunos com deficiência são necessariamente diferentes das dos alunos normais. Isto implica formação especializada dos profissionais que com eles lidam. O movimento da inclusão pretende que por exemplo, os professores do ensino regular sejam os principais responsáveis pelos alunos deficien- tes o que significa, na prática, que não se vê qualquer necessidade de especialização no ensino destes alunos.”
Estava preconizado nestas palavras o que agora acontece. O professor especializado termina como um recurso da escola e não como professor especializado de alunos com características específicas, que reclamam um ensino-aprendizagem de acordo com as suas necessidades. Desculpem-me… mas não sou um recurso da escola.
Sou-o dos seus alunos! Aliás, o melhor recurso que qualquer aluno pode ter: inesgotável!

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