Correio do Minho

Braga, segunda-feira

À porta fechada

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2018-08-17 às 06h00

Escritor

Autor: Tomás Guerreiro

Á porta fechada, giravam já pela matina os cálices de destilados no balcão. O dono expulsava os que procuraram refúgio para passar a noite, ali se quedando, por anestesia do vinho e amargura da vida, traficava em simultâneo à porta, sorrateiro, bolos ressequidos e baratuchos, na condição da ausência policial, aos jovens esfomeados que a noite criara para sua diversão. Mas como adverti o leitor, giravam já pela matina os cálices nas mãos dos pescadores, que utilizando o mesmo código dos boémios, batendo à porta, eram recebidos de forma totalmente distinta pelo tasqueiro. Eram pescadores, não eram os bêbados alarves vindos da noite, não se iam deitar, estavam a acordar. Não vinham matar a traça, vinham matar a angústia, e isso caía na moral do taberneiro.
Sair barra fora não é uma aventura, para quem dela faz vida. O ser é rotineiro e necessita de horários e doutrinas, com vista a encontrar uma estabilidade, não anda ao sabor das marés, nem se atreve a molhar o fato no ápice da intempérie. O pescador alimenta-se da sua bravura e da sua flexibilidade, e vive em permanente duelo com a precariedade, que a sua profissão lhe exige.
- Atão Marco? Vais sair? Parece que não és filho do teu pai… conhecia melhor as luas que tu! Porra!! Então tu não sabes que estamos a entrar em marés vivas?! Basta ligar o telejornal.
- Arranja-me um bagacinho se faz favor.
- A guarda marítima anda para trás e para frente na barra, dizem que não deixam ninguém passar, há bocado ligaram-me do Santa Rita não os deixaram entrar no mar. Até ao meio dia vai ser isto… E depois logo se vê. Além do mais custa-me ver-te beber, estás a beber muito. Não acabes como um deles.
- O Santa Rita não é o Maria do Carmo, e o Cabeça Rachada não sou eu. Se estou aqui a beber bagaço, acabado de acordar, é porque vou sair, e se não me aquecer aqui, também não me vou aquecer lá, e conheces-me bem o suficiente para saberes que detesto bagaço. É um osso do ofício Zé, assim como o martelo do juiz, ou a régua do carpinteiro, é uma clausula de contrato como a dos jogadores. É o que nós somos, pescadores, e se eu não me carregasse antes de entrar na gamela, como poderia passar a barra? Com que tomates é que ia ganhar dinheiro? Não somos de ferro Zé! E tu sabes disso.
- Hoje podes desistir de te fazeres ao mar! Já não morreram que cheguem? O que diria o teu pai?! Vai-te deitar com a tua mulher, é o melhor que fazes.
- Ele já cá não está para dizer nada. Arranja-me mais um bagaço!

A chuva caía a potes à porta do tasco, grossa, pesada, convincente dos mais incrédulos. No terceiro bagaço, esse permanente rebentar de água no chão, convoca-lhe o pensamento adoçado pelo poder do álcool, do afogamento de seu pai. Pensava como era possível? Que injustiça… nasceu e morreu no mar, e nem uma estátua lhe fizeram, nem o nome de uma rua, nada, morreu no mar e a sua morte no mar ficou. Nem a merda de um funeral teve, pobre homem, foi engolido no mar e quase ninguém o chorou em terra. Quase ninguém o chora. Passei a madrugada a amarrar os nós que lhe serviram de pregos, passei a alvorada a limpar o barco que lhe serviria de caixão, remei junto de ele para um fim previsível sem que sobre isso tivesse consciência. Não sou culpado, não o posso ser, era uma criança. Tudo começou mal nesse dia, era o nevoeiro, era a chuva, era a bebedeira que ele trazia nos cornos, foi aquela maldita onda, que sem piedade virou a gamela.
-Mais um bagaço! Era um bom homem, pensava Marco, bebia muito é certo, mas nunca nos faltou comida, podia não ser muita, mas havia sempre algo. Aquelas discussões com a mãe eram doentias, mas coitado, trabalhava que se matava… E ela sempre a agoirar, sempre nas suas rezinhas e bruxedos para o proteger. Trabalhava que se matava… que se matou!

Lembrava-se mal Marco da tempestade que levara para sempre seu pai, e que o deixou entregue á vida nas praias do Minho. Não se conseguia lembrar, porque já a sua mente estava embrutecida pelo ritmo costumeiro de consumo, não se conseguia lembrar, porque era muito novo para se lembrar, porque como ele sempre disse, desmaiou. Um espaço vazio ocupado pela angústia e pela solidão. No entanto esteve lá, e viu o seu pai a afundar-se juntamente com o seu sustento.
A chuva caí agora mais precipitada que nunca, e o vento fazia-se ouvir no interior do café. Dois estrondos surgem como que um despertar, para os homens que no silêncio domingueiro se deixavam embebecer pelo calor do álcool.
- Oh caralho! Estes gajos saem dos bares bêbados, e vêm para aqui bater á porta, qualquer dia mandam esta merda abaixo!
- Vai lá ver quem é Zé!
-Se for a polícia dizes que não te vendi nada, só estás aqui abrigado, como sabes não tenho licença para ter gente cá dentro a estas horas. Ouviram todos?! Após o aviso os olhares dos homens entraram em consonância.
Zé espreitou pelas persianas e para paradoxo do interior, abriu a porta tranquilamente; da qual entrou um impermeável amarelo, e um pequeno par de olhos incomodados, pelo o fumo e o cheiro a vinho. Não se sentou, fitou Marco, e perguntou:
- Os nós das redes estão amanhados, arrancamos pai?
- Já se faz tarde, filho.

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