Correio do Minho

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Portugal de pernas para o ar!

‘Inauguration Day’

Portugal de pernas para o ar!

Escreve quem sabe

2019-11-22 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso Carlos Alberto Cardoso

Portugal de pernas para o ar até é uma imagem bonita, se tivermos em consideração que sempre podemos ver Portugal de outra perspetiva. No entanto, o problema aqui são os motivos que colocam o nosso país de pernas para o ar. Às vezes, até parece que é mesmo para lhe cortar as pernas e não o deixar caminhar. Estou chocado! Vivemos tempos estranhos, onde já ninguém quer saber para onde vamos e como vamos. Os prazeres do colinho popular convergem em palavras de ordem, e os que governam, governam-se em família.

Então vejamos: Gasta-se mais de 10 milhões de euros numa Web Summit, que pouco faz pela nossa economia, pouco faz por mim e por si que me está a ler; mas não se tem uns trocos para ajudar a financiar a Bienal do Alto Minho. Sim, a Bienal Internacional de Cerveira é marca de um território (longe de Lisboa), um símbolo da democracia portuguesa, com mais de quatro décadas de existência, que detém um passado histórico, de excelência, de intervenção artística livre, numa relação única entre a arte, o artista e as populações. Apregoa-se a descentralização, cria-se um ministério da Coesão Territorial, instala-se três Secretarias de Estado no interior do país; e deixa-se de fora um evento cultural que, há décadas, marca toda uma região e o seu desenvolvimento.
Este é o exemplo de uma prática cega e surda de quem decide, considerando que o pais é só Lisboa.

Tudo o que ouvimos propagandear, com anúncios sucessivos de medidas de descentralização, cai perante exemplos como este da Bienal. Afinal, na prática, nada se quer mudar, pois tudo se quer dominar.
Mas desenganem-se os governantes deste país centralizado, pois o Alto Minho não é cego, nem surdo e tem uma voz poderosa que se faz ouvir.
O não financiamento estatal da Bienal Internacional de Cerveira é algo que não consigo entender, a par de outros acontecimentos cuja última semana tem sido fértil. O caso do bebé recém-nascido abandonado no ecoponto levou o Presidente da República Portuguesa a interpretar um papel triste e ignóbil, quando decide no imediatismo visitar o local onde a criança foi colocada. Marcelo Rebelo de Sousa protagonizou uma cena lamentável, chegando como um rei mago, onde só a manjedoura ficou, sem menino, sem pai, sem mãe, envolto numa ânsia mediática cega e manipulada.

Dias depois, a ministra da Justiça vai almoçar à prisão, supostamente, visitar uma mãe perdida e pobre… em tudo! Mais uma vez, o que estava em causa era a procura de um tempo de antena nos media nacionais. Que me desculpem os protagonistas, mas isto não é política, meus senhores, mas antes falta de vergonha e do verdadeiro sentido da política!
Dizia ainda o Presidente da República, na visita que fez há dias a Itália, que Portugal tem “problemas de educação” e “problemas de coesão social”, territoriais e entre gerações, considerando que “há ainda desigualdades que puxam todos para baixo, que são um limite ao progresso do país”. Pois, é disto que aqui escrevo. Nós não podemos continuar a ignorar a forma como nos governam e a forma como somos representados.

O país está de pernas para o ar. Os problemas na Saúde são uma constante. Para o comprovarem, basta recorrer a eles ou ler as notícias publicadas diariamente. Esta última semana veio a público o facto do Hospital de Guimarães ter, há mais de um ano, um Laboratório de Hemodinâmica totalmente equipado, graças ao esforço de muitas pessoas que quiseram fazer mais e melhor e angariaram mais de 2 milhões de euros para aquela unidade. Acontece que, Lisboa, não deixa funcionar esse Laboratório, por falta de senso e falta de humanidade para com aqueles que têm de fazer quilómetros e gastar centenas de euros nos seus tratamentos.

É triste assistir a tanta incapacidade e incompetência para resolver os reais problemas da população. Vivemos na ânsia de que o Turismo resolva tudo. Mas estamos enganados! Estamos a desfazermo-nos aos poucos em troca de uns euros, que jamais nos poderão reconstruir. Agora, faz todo o sentido a expressão “vendemos até a nossa avozinha”. Mas até ela nós perdemos. Foi isso mesmo que pressenti no fim de semana passado, na visita à Mouraria. Restam os retratos do nosso povo nas paredes, depois de entregues as casas a quem as pode comprar e explorar a turistas. Como disse o autarca de Viana do Castelo, José Maria Costa, a propósito da Bienal: “São decisões como estas que prejudicam a coesão territorial e aprofundam as fraturas culturais do nosso país”. Infelizmente, é assim que vai o nosso país: de pernas para o ar!

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