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Portugal é fixe

Portugal de pernas para o ar!

Ideias

2017-01-10 às 06h00

João Marques João Marques

Foi isso que nos legou o homem que fundou o Partido Socialista, que lutou pela democracia e que desempenhou, de forma notável, essa “desdenhosa missão” de ser político, um país fixe. “Um político assume-se” escreveu, sem temor, há uns anos, narrando a sua vida imensamente enriquecida pelas vivências que cá dentro e lá fora a compuseram. Uma vida que não daria um filme, mas uma saga. Como todos os homens maiores do que a vida, gerou paixões e ódios inconciliáveis, ganhou e perdeu eleições, aproximou, afastou, uniu e desuniu… Viveu, que é mais do que muitos podem dizer das suas vidas.

Hoje, à medida que o politicamente correto começa a mostrar as suas imensas falhas e a artificialidade desse discurso condena os moderados ao lado mais negro da lua, é bom lembrar que Soares mostrou como, de entre os muitos perigos da opinião livre e descomplexada, não está a desgraça eleitoral. Disse o que disse dos comunistas, das forças de bloqueio, dos imperialistas, fascistas, enfim, disse o que bem entendeu. Nem sempre foi coerente porque quem vive cá por baixo, no mundo pouco ideal dos seres humanos, só consegue ser totalmente coerente, sendo incoerente com o mundo que o rodeia. E apesar de tudo o que disse, apesar dos ataques que lançou e sofreu na refrega política, que se notava amar, ganhou e perdeu eleições pela e apesar dessa autenticidade.

Como o fez?
Não tendo medo de, lá está, assumir-se, de assumir as suas lutas e posições. Independentemente da minha discórdia profunda de algumas visões, posições e políticas que defendeu, foi um homem que deu gosto conhecer, ainda que à distância. Alimentou a minha consciência política, cívica e militância como poucos e fê-lo através da sua ação, que tanta vez mereceu a minha total oposição. São estes os efeitos colaterais de homens que não ficam na história, mas que são, eles mesmos, a face visível, palpável e vivida da história.
Foi assim que Soares lutou pela democracia dele, que é a minha e que continuará a ser a nossa, assim saibamos estar à altura do seu exemplo. Escrevi, há uns tempos, neste mesmo jornal, que não aprecio a iconografia obituária, os falsos consensos pós-morte que glorificam atributos “consensualizantes” e completamente desligados da realidade que os novos ícones viveram. Ora, com Soares, e como se vê pelo teor do que escrevo, não preciso sequer de evocar essas artificialidades funerárias para valorizar o que me parece que foi, é e continuará a ser o seu grande contributo para o Portugal que temos. Sim, Mário Soares lutou pela liberdade, mas pela liberdade dele, pelo que entendia, muito legitimamente, ser o conceito de liberdade que deveria prevalecer em benefício comum. Foi nessa imperfeição legítima que forjou o espaço para que cada um tivesse a oportunidade de lutar pela sua liberdade, uma liberdade necessariamente distinta da dele, com modelos distintos de organização social, económica e, até, política. Foi nessa imperial desconsideração pelo absoluto que gravou a sua marca histórica e identitária. Até porque, não pode existir verdadeiro gosto na política em quem não tem gosto pela diferença.

Que debate pode surgir da perfeita igualdade entre todos?
Que divergência pode alumiar o calor do combate eleitoral, se todos defendemos o mesmo partido, o mesmo programa e a mesma direção ideológica. Que verdadeira evolução pode resultar de quem quer apenas manter o que está, tal como está, para nunca mais mudar. Ao contrário dos mais cínicos, essa não é a definição do conservadorismo, mas da pura indigência intelectual.
Não menorizo, por isso, as conquistas práticas e mensuráveis da sua carreira política. Não esqueço o seu papel na consagração da democracia, na adesão à (agora) União Europeia e na consequente modernização de Portugal. Igualmente não desvalorizo os seus deméritos, tudo o que de menos bom terá levado a cabo, desde o famoso processo de descolonização, que ainda hoje alimenta ódios profundos à sua figura, até às mais recentes posições políticas que o tornaram numa espécie de reserva moral da extrema-esquerda em Portugal, ou, ainda, a sua obcecada defesa de quem tão claramente a não merecia. Mas julgo que a riqueza de todas estas partes individualmente consideradas, tudo o que de bom e mau representam sobre a sua figura, não chegam para beliscar um estatuto que até o seu mais feroz opositor há-de reconhecer. Soares fez-se maior do que as parcelas que compuseram a sua biografia não pelo que fez por si, mas pelo que, intencional ou negligentemente, nos legou: um país novo.

O Portugal de Soares é, quer ele o quisesse ou não, o Portugal de Palma Carlos, o Portugal de Vasco Gonçalves, o Portugal de Pinheiro de Azevedo, o Portugal de Nobre da Costa, o Portugal de Mota Pinto, o Portugal de Maria de Lurdes Pintassilgo, o Portugal de Sá Carneiro, o Portugal de Balsemão, o Portugal de Cavaco, o Portugal de Guterres, o Portugal de Durão, o Portugal de Santana, o Portugal de Sócrates, o Portugal de Passos, o Portugal de Costa e o muito que virá, enquanto não renegarmos o Portugal democrático que temos, que é fixe e que assim continuará a ser, com todas as suas qualidades e imperfeições. E isto não é um tributo, é a vida.

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