Correio do Minho

Braga,

Poupança das famílias baixa, má notícia para a economia portuguesa

O silêncio não erra

Ideias

2018-12-29 às 06h00

António Ferraz

Publicação recente do Instituto Nacional de Estatística (INE) aponta para a manutenção da tendência de descida da taxa de poupança das famílias portuguesas. Assim, no 3º trimestre de 2018, a poupança das famílias atingiu mesmo o seu nível mais baixo pelo menos das últimas duas décadas: a taxa de poupança das famílias baixou para 4,0% do rendimento disponível das famílias, menos 0,5% que no trimestre anterior (por exemplo, em 1995 o valor da poupança das famílias foi de uns confortáveis 12,9% do rendimento disponível!). Quer dizer, em Portugal, no 3º trimestre de 2018, as famílias portuguesas só estão a poupar 4,0% do que ganham, dado que os restantes 96% são gastos no consumo!

No 3º trimestre de 2018, o crescimento do rendimento disponível das famílias (salários, pensões e outros rendimentos) foi de apenas 0,3% (0,7% no trimestre anterior). Esta desaceleração do rendimento disponível das famílias deveu-se a elevação de 3,3% dos impostos sobre o rendimento (redução de 1,3% no trimestre anterior), tendo, por sua vez, as remune- rações recebidas se mantido face ao trimestre anterior (1,1%).
Por outro lado, o ritmo de crescimento das despesas das famílias em consumo (0,9%) ultrapassou o ritmo de aumento do rendimento disponível (0,3%) e, logo, mais uma vez registou-se uma quebra da taxa de poupança das famílias (4,0% do seu rendimento disponível).
No contexto da União Europeia (UE), a taxa de poupança das famílias portuguesas se situava nos últimos lugares da UE. Com taxas de poupança das famílias superiores a taxa de poupança das famílias portuguesa, encontravam-se, entre outros países, a Alemanha 17,7%, a França 14,3%, a Eslovénia 13,8%, a Áustria de 12,5%, a Dinamarca 12,4% e a Estónia 12,2%.

Em Portugal, tradicionalmente tem sido o sector Famílias aquele que tem vindo a apresentar taxas de poupança positivas, embora, como vimos, com uma tendência decrescente preocupante. Por sua vez, se atendermos a que uma parte dessa poupança é utilizada no auto-investimento (por exemplo, na aquisição de habitação própria), então, a parte sobrante representa, se positiva uma “capacidade de financiamento” do sector Famílias, se negativa uma “necessidade de financiamento” do sector Famílias.
No caso português, o sector Famílias regista, por regra, “capacidade de financiamento” traduzido pelo montante líquido de excedente dos recursos que o sector Famílias pode colocar à disposição dos outros sectores internos (Empresas e Estado) para fins de investimento produtivo (edifícios, máquinas, equipamentos, infra-estruturas económicas e sociais, etc.). Porém, desde 2013 (no auge do período de austeridade excessiva) que se tem vindo a assistir a uma progressiva diminuição da taxa de poupança e da “capacidade de financiamento” das famílias portuguesas! Esta última, no 3º trimestre de 2018, foi de 0,4% do PIB (menos 0,4% que no trimestre anterior)!
Mas todo este cenário não será pernicioso à economia portuguesa no futuro? Em concreto, se as famílias portuguesas continuarem a baixar o seu nível de poupança, isso não terá efeitos negativos no investimento produtivo e, logo no crescimento económico sustentado (de longo prazo) e no nível de bem-estar colectivo? A resposta é claramente sim.
Então, o que fazer para se alterar este cenário desfavorável?

Passamos, de seguida a destacar os seguintes aspectos a ter em conta:
(1) Se a poupança das famílias for muito baixa o investimento produtivo da economia geral será reduzido e insuficiente, ou, em alternativa, exigirá a obtenção de recursos financeiros ao exterior o que irá agravar desequilíbrios macroeconómicos estruturais, tais como, o défice orçamental e sobretudo a dívida pública portuguesa;
(2) É do interesse das próprias famílias passarem a poupar mais para se prevenir situações inesperadas pessoais (doença, velhice, desemprego, etc.) ou da economia geral (por exemplo, subida da taxa de juro ou o advento de uma nova crise económica e financeira):
(3) O BCE irá, por um lado, num tempo maior ou menor subir a sua taxa de juro de referência (devido ao crescimento económico e a elevação da taxa de inflação na zona Euro) e, por outro, retirar gradualmente os seus estímulos monetários ao sistema bancário. Será então de esperar menor liquidez bancária, elevação dos preços e uma maior taxa de juro de mercado. Por consequência, é expectável um aumento da poupança das famílias sob a forma de depósitos bancários, dada a existência de taxas de juro remuneratórias mais atraentes (na actualidade ronda os 0%);
(3) A governação portuguesa deve manter a sua política actual de financiamento interno da dívida pública que no presente já cobre 15% do total da dívida pública, através de novas emissões de produtos financeiros públicos (mais rentáveis que os depósitos bancários), tais como, de Obrigações do Tesouro, de Certificados de Aforro e de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável;
(4) Por sua vez, o Banco de Portugal deverá usar a sua persuasão moral “moral suasion” no sentido de chamar à responsabilidade os bancos por mais rigor no fornecimento de crédito e desvarios financeiros, evitando-se assim erros do passado.

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