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Braga, quinta-feira

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Pousadamente

Fernando Silva, o tocador de sinos de Tibães

Pousadamente

Ideias

2019-11-26 às 06h00

João Marques João Marques

Foram largos anos de definhamento. Foram vários governos sem sensibilidade e atenção para uma das principais infraestruturas de apoio à atividade turística no concelho. Naquela que já foi considerada a cidade mais jovem da Europa estava instalada uma das mais antigas e menos capazes pousadas da juventude do país. Chegava a ser confrangedor entrar nas instalações sitas na Rua de Sta. Margarida e pensar que quem quer que nos visitasse teria este como um dos cartões de visita de Braga.
Se, como é costume dizer-se, não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, a “nossa” pousada era um marco pouco digno da imagem que se queria, quer e continuará a querer projetar de um concelho que sabe conciliar, com harmonia, a riqueza da história com o dinamismo da inovação.

Nos anais da história ficará registado que foi a Câmara Municipal a única que assumiu, a expensas próprias, a requalificação do espaço, num acordo com o Estado central que deveria fazer corar de vergonha os governos na capital. No fundo, a autarquia, com uma capacidade de ação notável e uma total clarividência quanto aos propósitos estratégicos que quer perseguir – nomeadamente no setor do turismo -, toma conta de um edifício, renova-o, disponibiliza-o para quem nos quer visitar e demonstra como o princípio da subsidiariedade funciona. A vergonha para os governos sucessivos reside na formal assunção da impotência, da incapacidade para prover por um espaço que é seu e que deveria ser capaz de preservar em condições minimamente aceitáveis.

Não ignoro que esta coragem do executivo municipal possa ser aproveitada por alguns para sublinhar o apoio ou aceitação tácitos à desresponsabilização financeira do Governo da República. É verdade que uma Câmara Municipal não pode arcar com todas as falhas, desresponsabilizações e incapacidades financeiras do Estado central, sob pena de legitimar pacotes de descentralização ad hoc em que quem paga os custos são sempre as autarquias. Só que essa crítica não pode sustentar-se em exemplos pontuais e sumários, que se ligam politicamente aos objetivos dos programas eleitorais das populações locais e que correspondem a anseios urgentes da comunidade.

Uma coisa é assumir o ónus da recuperação de uma pousada da juventude, ou, de forma inovadora, apoiar cuidados médicos na área da saúde oral, ou, ainda, criar políticas de gratuitidade no acesso aos manuais escolares. Outra, bem diferente, seria incorporar investimentos ruinosos e irrecuperáveis do Estado, afetando-lhes receitas do município e prejudicando as economias locais.
Aqui, o espírito empreendedor deste executivo permitiu que se trilhassem estas iniciativas de largo alcance e de inegáveis efeitos multiplicadores sobre a comunidade. E essas consequências positivas são diariamente testemunhadas pelas pessoas que puderam ter acesso a tratamentos de saúde oral graças ao “Braga a Sorrir”. Este empreendedorismo tem tido, até, um resultado surpreendente no alargamento destas medidas a concelhos por todo o país e, no caso dos manuais escolares, ao Estado central, beneficiando toda a população portuguesa.

Se se quisesse perceber como delinear uma política de lobby positivo por parte das autarquias junto dos governos do país, aqui estaria, porventura, um dos melhores casos de estudo. É da pressão do sucesso das boas medidas que se criam efeitos cascata que, no caso bracarense, desafiando as leis da gravidade, sobem até ao poder central e impõem-se pela sua pertinência.
Olhando para os recentes dados sobre o turismo em Braga, observa-se uma consolidação do crescimento (as dormidas subiram 4 vezes mais do que no resto do país) que só vem corroborar a opção da autarquia de internalizar este encargo e recuperar uma pousada que pode servir de excelente porta de entrada para uma nova geração de viajantes.

Talvez seja este um passo determinante para que não só nos visitem, como decidam cá ficar mais uns dias. Quem sabe se não dizem aos pais, familiares e amigos o quão bem foram recebidos e instalados. Quantas partilhas em redes sociais de um belo e novo espaço, adaptado às exigências do nosso tempo, não chegarão a milhares ou milhões de pessoas? E quem sabe se muitas dessas pessoas não confiarão nesses relatos e não quererão experienciar o bom que é viver Braga. Se a Câmara não tivesse tomado a decisão que tomou, nunca o saberíamos. Desconfio que, dentro de poucos anos, veremos confirmada e ganha esta ambiciosa aposta.

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