Correio do Minho

Braga, sábado

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Preço Certo em exame

E no fim poderá ganhar (sempre) a Europa!

Ideias

2010-03-28 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Não será o tipo de programas que mais aprecio, nem tão pouco o apresentador corresponderá a um perfil que me prende a uma emissão, mas reconheço que “Preço Certo”, que a RTP1 emite no acesso ao horário nobre (por volta das 19h00), é um formato interessante. Que cumpre a função inequívoca de entreter um determinado grupo de telespectadores: mais idoso, que vive fora dos grandes centros urbanos e que está em casa sem nada de importante ou interessante para fazer. Fernando Mendes faz companhia e, ao mesmo tempo, vai instruindo a audiência com menos conhecimentos na moeda europeia.
Escrevo este texto a poucas horas de ir para o ar o documentário “Programa Certo”, da autoria de Camilo Azevedo, que a RTP1 agendou para o serão deste sábado. Para fazer este programa, o autor conversou com várias pessoas sobre o “Preço Certo”: com o apresentador, com a equipa de produção, com os convidados e com alguns especialistas em televisão. Foi nesse papel que, numa destas manhãs, me sentei com ele num velho estúdio da RTP Porto para gravar o meu depoimento. Aquela sala fria, com um pé direito altíssimo, transportava-me, de certa forma, para o cenário que eu retenho do “Preço Certo”. Para a maior parte das pessoas, o estúdio do programa talvez seja um espaço pequeno, colorido, bonito… Eu lembro-o com outras tonalidades. Como um espaço aberto, de um cimento frio onde há sempre muitos andaimes a transportar enormes caixotes. Nunca vi aquele espaço na hora das gravações, mas já me sentei ali várias vezes à espera da hora certa para participar noutros programas que têm o respectivo estúdio em lugares contíguos àquele. Quando se impunha alguma espera para começar determinada gravação, frequentemente eu ficava ali a olhar aquele frenesim e a pensar como pode ser pesada e trabalhosa a logística de um programa. À noite, quando se abrem as montras com os produtos em cujo preço é preciso acertar, os telespectadores nem imaginam o trabalho que está por detrás de tudo… A TV é mesmo assim: um universo opaco, embora haja a ilusão do contrário.
“O Preço Certo é serviço público?”, atira-me de imediato Camilo Azevedo nos primeiros minutos da nossa conversa. A pergunta é complexa. Há a possibilidade de responder negativamente, argumentando que poderíamos ter um formato mais complexo, com uma apresentação mais sofisticada, com um plateia menos ruidosa, com perguntas mais sábias, com um estúdio com outra estética… Mas também tenho de reconhecer que aquele programa é importante dentro da oferta televisiva actual. Fernando Mendes é um actor e isso habilita-o a apresentar bem aquele tipo de programas. Contraria tudo aquilo que a televisão convenciona ser obrigatório para quem conduz um programa de entretenimento: é baixo, gordinho, não exibe grande cuidado com a roupa, nem grande cerimónia na interacção com os convidados. Ele está dentro do pequeno ecrã como poderia estar na sala de qualquer um de nós. E estaria bem, porque Mendes é bem disposto, espontâneo, simpático. “Diga, lá amor, esse anel é mesmo de ouro?” À pergunta, o apresentador estende logo o braço para pegar na mão da pessoa que exibe a peça dourada. E dispara logo para outra participante: “É cozinheira da marinha, ‘mor’? E o que cozinha?” O interesse parece de tal forma genuíno que Mendes pendura-se, de imediato, na bancada dos convidados para beber cada palavra da receita culinária que imprevisivelmente entra, assim, no alinhamento. São estes gestos que conferem imensa popularidade a este formato, feito à medida deste apresentador, apesar de já terem passado por aquele ‘plateau’ muitos outros… Fernando Mendes é o melhor. Porque não é de plástico e isso tem um valor enorme.
Diz-me o autor do documentário que são inúmeras as excursões vindas de diversos pontos do país. Camilo Azevedo acompanhou uma, vinda de Cinfães do Douro. As pessoas, quase todas já em idade de reforma, vêm ao estúdio do “Preço Certo” como se fossem a uma romaria. É um dia de festa, nem que isso implique largas horas dentro de um velho autocarro. Vale a pena. Porque a TV exerce sempre fascínio nas pessoas, mas porque, acima de tudo, participam num programa onde ninguém se sente à margem. Fernando Mendes integra todos à medida que vão chegando. Como se o lugar de cada um estivesse ali, à espera. E todos têm liberdade de se levantar, ir embora e voltar. Quando regressam, o apresentador terá o cuidado de fazer perceber que não perderam nada, mas que é importante estarem ali. Parece fácil. Não é. Por isso é que este formato resiste tantos anos na grelha da RTP.

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