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Preços e juros irão acelerar em Portugal?

Os amigos de Mariana (1ª parte)

Preços e juros irão acelerar em Portugal?

Ideias

2021-09-11 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Oalerta proveio dos Estados Unidos da América (EUA) onde o Banco Central americano “FED” informou que com a reabertura progressiva da economia após o pico da pandemia a variação do índice de preços no consumidor “IPC” em termos homólogos (em relação a igual mês do ano anterior) tem vindo a apresentar uma tendência de subida. Assim, em agosto de 2021 há um salto da taxa de inflação anual para 5,4% contra os 5,0% do mês anterior, um valor máximo desde agosto de 2008, sendo números bem distantes do valor de referência do “FED” de 2,0%.
O agravamento dos preços tem vindo de igual forma a acontecer embora em menor grau na Zona Euro (UE-19) e Portugal. Segundo o EUROSTAT a variação do “IPC” na UE-19 foi de 3,0% em agosto de 2021 face aos 2,2% do mês anterior, o valor da inflação mais alto em quase três anos, ficando também aqui acima da meta de inflação do Banco Central Europeu “BCE” de 2%. Caso se exclua do cálculo inflacionário as componentes mais voláteis da inflação (energia e alimentação) ter-se-ia a designada “inflação subjacente” que, deste modo, abrangeria apenas as componentes da inflação mais estáveis. É, assim, que na UE-19 em agosto de 2021 a “inflação subjacente” foi de apenas 0,7%, o nível mais baixo desde maio de 2021. Quer dizer, a subida dos preços na UE-19 tem derivado muito mais do comportamento das componentes mais voláteis da inflação, energia 15,5% e alimentação 2,0%, do que das componentes mais estáveis da inflação. Ora, isso é o contrário do que se passa nos EUA onde a “inflação subjacente” foi de 4,3% em agosto de 2021 contra os 4,5% do mês anterior, valores bem mais elevados do que os da UE-27.
Em Portugal, dados do INE, revelam que a variação dos preços também tem vindo a ter uma tendência de crescimento tendo registado uma taxa de inflação de 1,5% em agosto de 2021 contra igual valor em julho, mas valor superior ao dos meses anteriores. Por sua vez, a “inflação subjacente” em Portugal em agosto de 2021 foi de apenas 0,9%, apenas mais 0,1% do que o valor do mês anterior.
Significa então que o ciclo de inflação e juros baixos findou? Se irá assistir ao surgimento de um novo ciclo agora de aceleração dos preços e juros? E, nesse caso, os Bancos Centrais passarão a adotar políticas monetárias e orçamentais restritivas? Quer dizer, em vez de políticas de “alívios monetários”, via, massivas operações de injeção de liquidez na economia (comprando ativos de dívida pública e privada) e fixação de baixas taxas de juro de referência dos Bancos Centrais, assistir-se-á a uma mudança da política monetária com retiradas graduais dos estímulos monetários e subida das taxas de juro de referência dos Bancos Centrais? E, deste modo, haverá um regresso ao passado de “austeridade” com o argumento da necessidade de controlo dos défices orçamental e da dívida pública, mesmo que feito à custa da recuperação económica pós-pandemia?
A resposta a essas interrogações é que não necessariamente, pelo menos a curto prazo. É que tanto o FED como o BCE têm vindo a enfatizar o caráter transitório da atual subida da inflação e juros e que promoverá a manutenção da política monetária expansionista de apoio à economia.
A transitoriedade da elevação dos preços e juros resultaria da pressão da procura agregada num contexto de recuperação económica e da escassez de matérias-primas, produtos alimentares e produtos energéticos fruto da contração produtiva mundial.
Assim, são muitos os analistas que defendem que, pelo menos, na UE-19 não é crível que o BCE altere a sua política de “alívios monetários” antes de 2023! Para isso argumentam que apesar da subida dos preços e juros a curto prazo a consolidação da recuperação económica pós-pandemia e o aumento da oferta internacional de matérias-primas e combustíveis fará com que a inflação e juros regressem aos seus níveis anteriores. A longo prazo, porém, o comportamento dos preços e juros a longo prazo dependerá da evolução da “inflação subjacente”. Sendo assim, parece que a situação nos EUA será mais complicada dado que a sua “inflação subjacente” tem vindo a ser bem mais alta do que a da UE-19.
Concluindo, assiste-se no presente a subidas dos preços e juros quer nos EUA quer na UE-19, embora neste último caso num grau bem menor. Com a recuperação económica e a normalização do comércio mundial é previsível o retorno a situação “normal” de baixa inflação e juros a curto prazo. Porém, é expetável que a longo prazo se possa iniciar um novo ciclo mas agora de subida dos preços e juros. Porquê?
Devido ao facto de a política de “alívios monetários” ter implicado no agravamento dos défices orçamental e da dívida pública dos Estados. Por sua vez, os agentes económicos apercebendo-se do risco de incumprimento pelos Estados não deixarão de exigir um juro superior para comprarem títulos da dívida pública. Dada a necessidade de reequilíbrio do défice e dívida pública dos Estados e, logo, da retirada gradual dos estímulos monetários à economia, poderá surgir um novo ciclo de subida dos preços a que os agentes económicos naturalmente se deverão acomodar.

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