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Preparar o futuro...

A pandemia está a alterar negativamente a nossa mente – como combater?

Preparar o futuro...

Escreve quem sabe

2021-01-11 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

“Ano novo, vida nova” repete-se invariavelmente nos primeiros dias do ano que chega e que, no presente, ganha ainda mais relevância e projecção, tanta é a esperança e vontade de não repetir os constrangimentos, as condições e as consequências pandémicas de 2020.
Seja como for, e estando sempre associadas expectativa e esperança, o ano novo é sequência e consequência do tempo passado, não apagando por magia os problemas que carregamos nem optimizando por capacidade divina as “coisas boas” que transitam. Como tal, convém olhar para o momento, aproveitando o seu carácter de balanço prospectivo sem perder a carga de realismo que é sempre inerente ao tempo.
Para lá deste “tempo pandémico”, o momento é de mudança e de ajustamento, dir-se-á mesmo, de (agora) constante transformação, emergindo novos desacertos e possibilidades, novas dificuldades e oportunidades, resolvendo-se problemas que, não raras as vezes, geram a felicidade e, outras tantas vezes, resultam na descoberta de novos e outros problemas.

Acredita-se que esta natureza transformadora do tempo actual veio “para ficar”, revelando uma consolidação e desenvolvimento nos últimos (longos) anos que induz ser avisado reflectir e melhor equipar para enfrentar e superar o mesmo. Para tal, é convicção que emergem novos caminhos e soluções. E que não é mais possível repetir métodos e soluções passadas sem qualquer ajustamento ou actualização (que os últimos textos tentaram evidenciar e contextualizar relativamente ao plano director municipal). Mas também não é menor a convicção de que os princípios de suporte e estruturadores de qualquer acção, ou dito de outra forma, da atitude perante qualquer acção, permanecem iguais. Ou seja, atender ao passado, ser consequente no presente, planear o futuro.
Atender ao passado porque é ele que, por muita mudança surpreendente que se demonstre, influencia o presente e nos dá as ferramentas e a experiência para conjugar informação, conhecimento e capacidade e, assim, sabedoria para melhor praticar o presente.

O passado dá-nos lições e a liberdade de, sobre ele, retirarmos as conclusões entendidas como úteis e devidas. E dá-nos a certeza e demonstração do que fomos capazes de pensar, decidir e construir.
Praticar o presente significa ser consequente com a nova (boa) ambição e compromisso assumido, perseguindo objectivos e resultados, mesmo que tendencial- mente visíveis apenas a médio / longo prazo, fazendo o melhor… que significa usar a justeza na decisão e a coerência na acção. Tergiversar em função dos interesses do momento, acomodar o tempo ao âmbito da nova acção, fazendo que os (bons) resultados se cinjam ao novo tempo e empurrando os (maus) resultados para lá na nossa presença é princípio que, momentaneamente, dará “a impressão da boa acção e resultado, calma e conforto” mas, seguramente, será potencialmente fátuo e inconsequente para o futuro.

Planear o futuro sabendo que a estabilidade e a previsibilidade de outrora já não conjugam com a natureza transformadora e de mudança que o tempo actual carrega.
Por ser assim, tão “imprevisível” e, por vezes, tão inesperado e disruptivo, é que, cada vez mais, o planeamento não deve ser um produto, uma ideia formatada e materializada em planos e documentos perenizados no tempo, mas um processo (desejável e continuadamente) crítico e propositivo, reformador quanto baste, contínuo assim que necessário, sempre preparado e ajustado, criando condições para enfrentar o dia seguinte. E será esta condição que significará o planeamento do futuro: preparar criando condições para enfrentar e superar o dia seguinte.
Reinventar como nos preparamos para o futuro é, consequentemente, necessário e pode ser um bom propósito para o novo ano.

Os sinais dados sobre o plano director municipal não são promissores, a aparente e lenta reacção ao momento pandémico das cidades – no sentido de perceber as dinâmicas que se têm vindo a instalar, a nova percepção do espaço público, as novas formas de trabalho e mobilidade em experimentação, a qualidade ambiental alcançada nalguns momentos – e a crónica incapacidade e lentidão da globalidade das instituições em ajustar, adaptar e reagir (como forma de prevenção do “futuro que se adivinha”) não permitem perspectivar grandes avanços. Em oposição, ideias como a “cidade dos 15 minutos”, os “bairros saudáveis” e os princípios estruturadores por detrás subjacentes (como o estímulo ao reforço da comunidade local, da proximidade entre residência, trabalho e escola, a valorização do espaço público e a importância do tempo na cidade) fazem acreditar que é possível construir e experimentar um tempo novo no planeamento das cidades, assim sejamos capazes de ser coerentes e consequentes.

Sabe-se – e o passado mostra à saciedade – que a adaptação das instituições e do edifício legal de suporte a novas realidades é sinónimo de tempo lento, por vezes, exasperante. Mas (também) sabe-se que não há alternativa. E que devemos ter esperança no momento presente. E em todos nós que “aqui estamos e andamos” e que, seguramente, carregam e partilham a responsabilidade e esperança de melhor preparar o dia de amanhã. Para que seja melhor do que o tempo actual. E, assim, melhor para todos!

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