Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Preso por ter cão... o Estanislau:

E se falarmos de Suicídio?

Conta o Leitor

2020-08-06 às 06h00

Escritor Escritor

Escrito por Palau


Na manhã de um domingo qualquer, estando eu ainda a chafurdar nos escombros da noite anterior, romanticamente abraçado à minha almofada da sorte, por falta de melhor, ouço o telefone a tocar. “Deixa tocar...” única opção lógica que se me apresentou. No entanto, à quarta insistência lá condescendi como forma de evitar o prolongamento daquele martírio sonoro.

Logo após o meu “toucinho?...” fui metralhado por uma algarviada histérica e indecifrável, entrecortada por convulsões e soluços chorosos; após vários pedidos de calma consegui decifrar alguma coisa: era a Maria e, ao que parece, tinha “levado uma carga de porrada” (palavras dela) do namorado Estanislau; e o que é que eu tinha a ver com isso? Pensava eu com os meus pelos do peito (não uso botões na cama)... Já mais calma, explicou a Maria ao que vinha: queria que eu fosse a casa dela dar-lhe apoio, utilizando como argumento o facto de ser amigo dos dois – na verdade, tanto um como outro, não passavam de meros parceiros de viagem das minhas noitadas, embora tenha sido através de mim que se conheceram e se “ajuntaram”, mas não era por isso que lhes tinha dado o direito de ultrapassarem a fronteira entre os (muitos) conhecidos para os (poucos) amigos que eu por aquelas bandas tinha. A primeira reação a este pedido foi a pergunta óbvia: “porque é que não ligas às tuas irmãs ou amigas?” tendo obtido a desarmante resposta: “tenho vergonha que elas me vejam neste estado”; curioso: de mim não tinha vergonha nenhuma…; após várias trocas de argumentos – não tinha a mínima intenção de aceder ao pedido – rematei com os argumentos finais: “não tenho nada a ver com isso e não me vou envolver em enredos que não são meus, portanto não vou, definitivamente”; logo fui prendado com uma série de insultos irrepetíveis e um “violento” desligar do telefone. Tudo bem para mim, estrebuchei e lá voltei ao meu namoro almofadeiro.

Confesso que pouco me lembrei deste evento nos dias seguintes. Passada uma semana, estando eu num dos meus “escritórios” preferidos a reiniciar mais uma via alcoólica para o socialismo, vejo a Maria e o Estanislau, de mão dada, a entrarem por ali dentro e a dirigirem-se apressadamente na minha direção: “és uma merda, não vales nada…”, logo disparou ela, seguindo-se, uma série de acusações e insultos, não me dando grandes hipóteses de ripostar. Enquanto isto o Estanislau mantinha-se de lado, despreocupadamente, de sorriso gozão e marialva. Quando, finalmente, consegui falar, lancei inteligentemente:
- “quer-se dizer, ele arreia-te e tás aí toda feliz com ele e eu é que sou o mau da fita, algo está mal nesta equação Maria”;
- “isto não tem nada a ver comigo ou com ele, tem a ver com eu ter pedido ajuda a um amigo e ele ma ter recusado, és uma merda de gajo, nunca mais te cruzes comigo nem me dirijas a palavra”, logo ela retorquiu;
- “Ok Maria, ficamos assim combinados…” rematei eu, tentando demonstrar algum desprezo, talvez pouco sincero;

Posto isto, logo ela me vira as costas e se afasta apressadamente, seguida por um calmo Estanislau que, antes de sair e com todo o desplante, vira-se para mim e dispara “vemo-nos amanhã para uma suecada…”
Mais uma vez tentei não pensar muito no assunto, na verdade a Maria era-me perfeitamente indiferente e, por qualquer acaso, nunca mais a vi. Já o Estanislau lá continuava a circular pelos meus espaços como se nada se tivesse passado e tratando-me como se amigos de abraço fossemos. Era uma situação que me irritava e, até, embaraçava, mas, fosse por preguiça, cobardia ou outra coisa qualquer, limitava-me a transmitir-lhe alguma frieza no trato; coisa que pouco o incomodava e nada lhe alterava o comportamento...
Na verdade ele até era uma personagem interessante, culto e bem falante era um excelente parceiro de tertúlia e até costumava ficar no meu lado da barricada nas rotineiras discussões políticas e de costumes em que eu tanto participava.

Sem grande surpresa vim a saber, alguns dias depois, que a coisa entre os dois tinha passado à história; talvez tenha havido mais uma demonstração de “carinho” ou falta dele… nestas coisas nunca se sabe…
Passadas umas duas semanas, cruzo-me com a Miquelina – esta bem mais próxima de ultrapassar a linha conhecida/amiga - no café do bairro, informando-se esta, sofregamente e com um brilhozinho nos olhos, que tinha começado uma relação com o meu “amigo” Estanislau, e que feliz estava a moça com isso…

Aí veio ao deu cima o meu feitio altruísta e de bom rapaz: senti-me na obrigação de a informar de forma “souple” e educada, a tendência que o moço tinha para ter a “mão leve” no que às namoradas diz respeito. Surpreendentemente, ou talvez não, fosse eu mais esperto e informado no que ao pensamento feminino diz respeito, a minha altruísta informação teve como consequência automática uma série de insultos e de observações rebaixadoras da minha condição masculina, finalizando com um “o que tu tens é ciúmes de estar com ele e não estar contigo como tu querias…”, tentei balbuciar alguma coisa, entre o “desculpa” e o “percebeste-me mal”, mas não valeu de nada: “não vales nada, és um gajo de merda, nunca mais te cruzes comigo nem me dirijas a palavra...” e foi-se... mania de me meter onde não sou chamado, introspectei eu agarrado ao meu “screw drive”.

Passado um par de dias, cruzei-me, novamente, com o Estanislau e logo ele me atirou com ar gozão “então fostes dizer à minha namorada que eu bato nas mulheres?”; “e é mentira?” perguntei, perspectivando, desde logo, o início de uma peixeirada... mas não, a conversa dele foi logo noutra direção como se nada se passasse, continuando a usar-me, irritantemente, como se grandes amigos fossemos.
Os dias foram passando, nunca mais vi a Miquelina e o Estanislau lá ia existindo nos meus “espaços”, a vida continuava…

Passadas umas três semanas e quando menos esperava, dou de caras com a Miquelina, de óculos escuros e braço entrapado, “tinhas razão...” diz-me ela num sussurro envergonhado – confesso um perverso sentimento de realização e, até, alegria pela minha razão ou, se calhar, pelos tais ciúmes de que tinha sido acusado; sentimento esse que, facilmente, se sobrepôs à pena e preocupação pelo seu estado e pelo sucedido -. Preparando-me eu para dispensar um ombro amigo numa conversa séria, logo os meus intentos foram defraudados por um “desculpa... não me apetece falar do assunto nem estar com ninguém” e foi-se…

Nunca mais vi o Estanislau, dizia-se que tinha “fugido” para Lisboa, e poucas vezes a Miquelina, sempre sem conversas como se eu fosse parte viva e culposa do que lhe tinha acontecido.
Mais uma vez me preparava para esquecer o assunto quando recebo um telefonema de uma advogada da praça, que conhecia vagamente, que me pedia uma reunião: a Miquelina tinha apresentado queixa e tinha dado o meu nome como testemunha por isso precisava do meu depoimento... Lá estava eu metido num enredo que não me devia dizer respeito...
Fui a reunião, prestei o meu depoimento segundo guião apresentado, não sem que tivesse de apanhar um forte sermão crítico por parte da dita pelo meu papel no assunto: ao que parece se eu fosse um homem a sério tinha sido logo eu a apre- sentar queixa quando soube da primeira agressão, lá voltávamos ao “gajo de merda, não vales nada...”

Curiosamente, nunca mais vi a Miquelina, nem nunca mais fui, legalmente, contactado: fizeram um acordo e a queixa foi retirada, dizia-se nos mentideiros.
MORAL DA HISTÓRIA: Nenhuma; não existe nenhuma moral quando o mais forte se sente autorizado a agredir o mais fraco. Quanto ao meu papel nisto tudo, pouca há a dizer, concluo eu, sou, simplesmente, o Palau, para o bem e para o mal.
Mais uma história que poderia ter acontecido assim…

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