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Braga, terça-feira

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Primeiro de Dezembro

Criado... não aceita mau destino

Primeiro de Dezembro

Voz aos Escritores

2019-11-29 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

O dia em que Portugal voltou a ser dos portugueses
De novo Portugal, uma nação,
Vivia a independência restaurada,
Sabendo estar, apenas, começada.
E ao dar total apoio a D. João,
O povo o elegia seu senhor,
Chamando-lhe de rei "Restaurador".
Vítor Cintra
Oferiado mais patriótico de todos está quase a dar o ar de sua graça. Falamos do Primeiro de Dezembro, o símbolo da Independência de Portugal.
Em 1640, os rebeldes portugueses invadem o Paço da Ribeira. Começava aqui a revolta contra o domínio filipino espanhol que durava havia já sessenta anos. O Minho assume, aqui, um papel relevante ao ver nomeados o arcebispo de Braga e o visconde de Vila Nova de Cerveira como governadores dos negócios públicos até à chegada do novo rei, D. João IV. Reza a história que os estudantes da cidade de Braga foram os primeiros a dar as boas – vindas ao rei, saindo à rua para comemorar a restauração da Independência. Deu-se, então, início a uma tradição que ainda hoje se mantém viva.
A celebração deste acontecimento prende-se com o que de mais importante realizou e rei pela pátria: restaurar a sua autonomia. O rei foi feliz, pois foi visto como virtuoso, de valor acrescido, agindo para bem dos outros. De acordo com o princípio aristotélico, o exercício mais perfeito das virtudes é aquele em que o homem não age em seu interesse próprio, mas no interesse do outro. Quando se enaltece a felicidade de D. João IV, sublinha-se o carácter social ou comunitário dessa virtude, louvamos a felicidade com que um dia devolveu Portugal a Portugal! Ele tornou livre o que era cativo; incólume o que estava doente; firme o que era vacilante; armado o que estava desarmado; vitorioso o que estava vencido; glorioso o que perdera a glória. D. João IV é assim a manifestação da vontade divina, tendo sido designado pela Divina Providência e por ela confirmado como rei de Portugal.
Por isso, em todas as escolas do país, o primeiro de Dezembro era uma data de alegria, movimento, amizade, camaradagem e de muitas atividades, desde o teatro aos coros e recitais de música. É, por isso, impossível falar do Rei Restaurador sem referir o seu talento como músico e compositor. Foi mesmo considerado um mecenas da música e das artes, assim como um sofisticado autor. Sabe-se que o seu reinado possuía uma das maiores bibliotecas musicais do mundo. O seu pai investiu muito na sua educação, que o fez despertar para a prática da composição musical, considerando que sem a música nenhum conhecimento é perfeito. Aliás, já na antiguidade, a música apontava para o meio de comunicação com os deuses e com o povo, nomeadamente usando-se a voz como instrumento. Inferimos, assim, que a música funcionava como uma forma de estarem mais próximos das divindades, um caminho para a perfeição. Nessa época, os poemas eram cantados ao som da lira.
De acordo com informação pictográfica que sobreviveu até aos nossos dias, a Lira mais famosa era a de Orfeu, Deus da Música e da Poesia. A Lira está assim associada à arte da palavra, à mística da poesia, sendo também associada a Safo, a poetisa que revolucionou a imagem feminina na Antiga Grécia ao participar na vida pública, até então reservada apenas aos homens. A lírica de Safo é apreciada entre os mais belos exemplos de poesia, desde então:
morto o doce adónis/e agora citereia
que nos resta?/lacerai os seios donzelas/dilacerai as túnicas génese
do poema/vem/lira quelónia divina:
vira/sompoema.
Também os romanos utilizavam a música na guerra para sinalizar ações dos soldados e tropas e também para cantar hinos às vitórias conquistadas. Geralmente os instrumentos eram tocados por mulheres.
Realce-se a relevância da figura feminina também a nível de fé do rei Restaurador. Como gesto de gratidão a Nossa Senhora da Conceição, em 1646, este consagrou-lhe Portugal e todas as suas províncias ultramarinas, sendo coroada oficialmente Rainha e Padroeira de Portugal. Camões dedica-lhe o poema «À Conceição da Virgem Imaculada» que assenta claramente num hino mariano:
Para se namorar do que criou,/Te fez Deus, sacra Fénix, Virgem pura./ Vede que tal seria esta feitura/ Que para si o seu Feitor guardou!/No seu alto conceito Te formou/Primeiro que a primeira criatura,/Para que única fosse a compostura/ Que de tão longo tempo se estudou[…].
Também na obra poética de Bocage «À puríssima Conceição de Nossa Senhora», é nítido um hino mariano. “Que espectáculo, ó céus! Eu velo?... Eu sonho?...Que diviso!...
Onde estou!...Purpúrea nuvem/Ante os olhos atónitos me ondeia/E chuveiros de luz despede à terra![…] Oh triunfo! Oh mistério! Oh maravilha! Oh celeste heroína! A sacra turma /Quem tudo criou[…]”.
Em nosso entender, está encontrada a justificação para a celebração do Dia da Restauração. Prende-se com o facto da liberdade e da independência de Portugal serem, enquanto comunidade coletiva, os nossos bens mais preciosos.
E se para alguns, num contexto de integração europeia e de abolição de fronteiras, as características inicialmente patrióticas destas comemorações poderão parecer obsoletas, sem qualquer sentido ou significado, não podemos ignorar que, num contexto político e social de necessária afirmação de uma identidade cultural, é muito relevante continuar a festejar o 1º de dezembro, o que é, no essencial, uma forma de celebrar a nossa liberdade, a nossa independência e a nossa identidade.
As fronteiras não devem, assim, ser vistas como separação, mas como congregação e abertura à pluralização da diversidade e da liberdade, sem perdermos a nossa identidade, como podemos ler no poema “Muro” de Manoel de Barros:
O menino contou que o muro da casa dele era/da altura de duas andorinhas/. (Havia um pomar do outro lado do muro.)/Mas o que intrigava mais a nossa atenção/principal/Era a altura do muro/Que seria de duas andorinhas/.
Depois o garoto explicou:/Se o muro tivesse dois metros de altura/qualquer ladrão pulava/Mas a altura de duas andorinhas nenhum ladrão/pulava. /Isso era
A imagem da liberdade, conotada pela altura de duas andorinhas, aves migratórias, simboliza o indivíduo sem fronteiras, a mobilidade, o migrante, a liberdade e a renovação da vida, onde não há ladrão capaz de a subtrair, como nos canta Aida Araújo Duarte, em Villa de Basto:
A minha terra tem urze, rosmaninho e alecrim/E eu prego os meus olhos nela/Sinto-a cá dentro de mim.

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