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Probabilidades e olhares

Sem paralelo

Ideias

2015-02-06 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Acabaram de sair os últimos dados referentes à evolução do mercado de trabalho em Portugal; a história é mais ou menos positiva consoante por onde se olha.
Isto é, para os pessimistas, a situação degradou-se: se compararmos com os trimestres anteriores, o desemprego aumentou, de novo, no final de 2014. Mais de 22 mil pessoas ficaram desempregadas - homens, pessoas com mais de 45 anos e com nível de escolaridade correspondente ao ensino secundário ou pós-secundário.

Por outro lado, ainda no ultimo trimestre de 2013, a população empregada baixou mais ainda do que o aumento do desemprego; para onde foram então? e quem são? Para além do factor óbvio que é a idade, os dados traduzem ainda, de forma clara, a quebra na agricultura e no emprego por conta própria. Uma diminuição que abrangeu quase 59 mil pessoas no caso dos sectores da agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca. O desemprego dos jovens, entre os 15 e os 24 anos continuou a subir, atingindo os 34%. Ainda os pessimistas, sublinharão que as formas contratuais mais inseguras, como os recibos verdes, ou os contratos a termo, também aumentaram.

Os optimistas, por outro lado, têm também motivos para se rejubilarem. Olhemos agora não para o que vinha acontecendo em 2014, mas para a variação homóloga, e a história já é outra. A tendência do desemprego é claramente negativa - face a 2013, o número de desempregados diminuiu cerca de 110 mil pessoas, e a população empregada cresceu também. E o que é mais interessante é que o emprego aumentou em ocupações potencialmente com níveis de produtividade mais elevadas, em pessoas com o ensino superior, na faixa etária dos 35 aos 44 anos, no setor dos serviços, e curiosamente nas mulheres.

Tudo isto são indicadores positivos, que permitem colocar como hipótese a recuperação do mercado de trabalho, numa dinâmica de crescimento sustentada também pela descida do preço do petróleo e o possível impacto positivo na indústria. Não deixa de valer a pena notar que, em 2014, o emprego industrial aumentou no nosso país. E o desemprego jovem diminuiu também se compararmos com o ultimo trimestre de 2013.

Então em que ficamos? Não acredito de forma alguma na visão pessimista, mas o optimismo terá de ser muito acautelado. O problema é que os factores de risco são ainda muito elevados. O próprio FMI chamava recentemente a atenção para o peso relativo elevado dos inactivos e do subemprego. Mas a questão mais preocupante é saber como se poderá esperar que seja o comportamento do mercado de trabalho a uma fase ascendente do ciclo económico.

Um artigo de Pedro Amaral, publicado recentemente no Boletim Económico do Banco de Portugal, coloca uma questão interessante - qual é a correlação entre as flutuações cíclicas do mercado laboral e o ciclo agregado da economia portuguesa. Isto porque normalmente os economistas pensam que os salários se tendem a ajustar de tal forma que a procura e a oferta de trabalho sejam equivalentes. Se há muito desemprego, pois os salários deverão tender a baixar até que seja suficiente para induzir a procura de trabalho por parte de uma empresa; em tempos de crise, e com salários elevados, as empresas reduzirão tanto quanto puderem o número dos seus colaboradores.

Mas as coisas são um pouco mais complicadas. Em primeiro lugar, porque a probabilidade de uma pessoa transitar entre desemprego e emprego é baixa; os valores são dos mais baixos na OCDE.
Por outro lado, diz ou autor que “talvez por virtude de instituições próprias do país” é como se “o mercado laboral não fosse afetado pelo ciclo económico agregado”. Seja por causa dos sindicatos, porque os contratos efetivamente estabelecido têm uma qualidade muito inferior à exigida pela regulamentação legal, seja por causa de uma atração cultural por um formalismo inconsequente, o mercado de trabalho reage lentamente aos incentivos que lhe vêm do mercado, das empresas. O mecanismo é lento, as pessoas e as empresas tendem a ser pessimistas, e portanto a volatilidade é menor. E o pessimismo não é bom - nunca, mas também na economia.

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