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Pródromo da visão holística da Terra 2: “Gaia” de Lovelock

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Pródromo da visão holística da Terra 2: “Gaia” de Lovelock

Escreve quem sabe

2021-05-15 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Há quinze dias escrevi sobre a ideia humboldtiana de “Naturgemälde” (Quadro Físico) como contributo precursor para uma visão holística do nosso planeta que se encontra subjacente ao Antropoceno enquanto conceito geocronológico. Hoje, abordo aqueloutro dado mais de século e meio depois James Lovelock com a noção de “Gaia”. Ambos, ao terem concebido a Terra nesses termos, como um todo, abriram caminho para que a possamos pensar desse modo, no seu todo.
Tudo indica que o cientista britânico – que 101 anos de idade daqui a meses – começou a formar essa perspetiva em meados da década de 1960, quando se encontrava a trabalhar numa unidade chefiada pelo astrónomo Carl Sagan no Jet Propulsion Lab da NASA, para a qual tinha sido contratado para desenvolver instrumentos destinados à análise bioquímica de atmosferas extraterrestres. Nesse período, Lovelock interessou-se pela composição da atmosfera de Marte e no artigo “Uma base física para experimentos de deteção de vida” (1965) apresentou um argumento que mais tarde seria reinterpretado como o ponto de partida para a sua noção de “Gaia”.

Aí reivindicou que necessitando boa parte das formas de vida de oxigénio para subsistirem e estando esse gás quase ausente na atmosfera do planeta vermelho – que é composta sobretudo por dióxido de carbono – mas, ainda assim, se mantém perto do equilíbrio químico, poderia inferir-se que essa notável diferença entre as atmosferas marciana e terrestre indiciava fortemente a inexistência de vida em Marte. Noutros termos, o que Lovelock entreviu foi que em Marte, diferentemente da Terra, não havia condições biogeoquímicas suficientes para a emergência e manutenção de formas de vida baseadas em ADN. Em consequência, sugeriu que seria desnecessário construir caríssimas sondas de deteção de vida a enviar a Marte, porque bastaria fazer a partir de telescópios terrestres a análise espectroscópica remota da atmosfera daquele planeta. A NASA não lhe deu ouvidos e lançou nas décadas de 1960-70 os programas Mariner e Viking para determinar se havia vida em Marte, mas, sem surpresa (para Lovelock) ela não foi encontrada nele.

A ideia de que a vida no nosso planeta criou as condições para a sua continuidade e que a Terra se comporta como um superorganismo só foi explicitamente formulada por Lovelock em 1972 numa curta nota publicada na secção de cartas ao editor da revista Atmospheric Environment, com o título “Gaia tal como vista através da atmosfera”. Aí afirmou nos parágrafos iniciais: «(…) a vida num estádio inicial da sua evolução adquiriu a capacidade de controlar o meio ambiente global para atender às suas necessidades e essa capacidade persistiu e ainda se mantém ativa. Nesta visão (…) “A Biosfera” (…) é uma entidade com propriedades maiores do que a simples soma das suas partes. Uma criatura tão grande, mesmo que apenas hipotética, com a poderosa capacidade de homeostatizar o planeta o ambiente precisa de um nome; estou em dívida para com o Sr. William Golding por ter sugerido o uso da personificação grega da mãe Terra, “Gaia”».

“Gaia” começou, pois, por ser uma hipótese – que o nosso planeta se comporta como um sistema que se autorregula, ou seja, que se mantém num estado de equilíbrio homeostático por intermédio de mecanismos físicos, químicos, geológicos e biológicos em interação –, mas que nunca chegou a teoria, porque a comunidade científica nunca a considerou suficientemente testável ou falsificável. Ela contribuiu, no entanto, para que pensássemos mais fecundamente o funcionamento do nosso planeta e o modo como atuamos dentro dele.

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