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Pródromo da visão holística da Terra 3: o diagrama de Bretherton

Por um estado promotor da sociedade civil e do crescimento ecónomico

Pródromo da visão holística da Terra 3: o diagrama de Bretherton

Escreve quem sabe

2021-05-29 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Desde o início da década de 1980, pelo menos, que a comunidade das Geociências começou a encarar o nosso planeta como um sistema muito complexo, ou seja, com um elevado número de componentes heterogéneos em interação uns com os outros, e com uma dinâmica fortemente não-linear, isto é, comportando-se de modo relativa- mente instável e imprevisível.
Um contributo maior para lidar com um objeto com tais características foi o do matemático estadunidense Francis Patton Bretherton que concebeu uma representação visual esquemática da sua estrutura e modo de funcionamento básicos, na forma de um diagrama que viria posteriormente a manter o seu nome.

À semelhança dos mapas, os diagramas são instrumentos para auxílio no conhecimento de realidades (coisas, processos, etc.) complexas. Todavia, em regra, os primeiros tendem a manter uma relação mais realista e isomórfica com os objetos que procuram representar – e.g., um mapa de uma cidade – ao passo que os diagramas tendem a possuir um caráter mais abstrato e heurístico – e.g., um circuito eletrónico.
Bretherton apresentou o seu diagrama num artigo publicado em 1985 com o título “A ciência do sistema terrestre e a deteção remota”. Na verdade, forneceu duas versões do mesmo, uma mais simples e outra mais detalhada. Ambas constituem um modelo conceptual do Sistema Terrestre, mas a primeira permitiria fazer previsões de mudanças no seu funcionamento em termos de décadas, ao passo que a segunda em termos de séculos. No fundo, adaptou as distintas versões a diferentes usos possíveis, como ocorre quando usamos um mapa de estradas, que se apenas circulamos por autoestradas pode omitir as rodovias secundárias e se somente transitamos nas últimas pode ocultar aquelas.

O que encontramos no diagrama de Bretherton é uma esquematização dos supostos dois componentes principais do Sistema Terrestre, o sistema climático e os ciclos biogeoquímicos, e dentro deles, os subsistemas da litosfera, hidrosfera, atmosfera, biosfera. O Sol apresenta-se incluído na categoria de “força externa” de mudança do sistema. A dimensão das atividades humanas foi igualmente incluída, interpretada como capaz de afetar o uso de terra e água, assim como de gerar poluentes, e, em contrapartida, de ser afetada principalmente pelas alterações climáticas e mudanças nos ecossistemas terrestres. Esta categoria, como bem sabemos a três décadas de distância adquiriu uma relevância na determinação da evolução do Sistema Terrestre que conduziu à hipótese do mesmo ter alterado essencialmente o seu estado e termos entrado já na nova época geológica do Antropoceno. Na medida em que existem múltiplas relações (causais e intercausais) entre os seus sistemas e subsistemas, com a saída de um a ser a entrada de outro, nenhuma dessas categorias pode ser avaliada isoladamente.

Como o referido título do seu artigo em que o diagrama foi apresentado indica, o modelo é em última instância alimentado por dados e esses, claro, têm antes de ser colhidos. De modo pioneiro, Bretherton projetou o desenvolvimento das chamadas tecnologias de deteção remota por recurso a sensores posicionados em lugares estratégicos do Sistema Terrestre e em plataformas orbitais ou satélites do mesmo, destinadas a obter dados sobre o seu estado e evolução.
O diagrama de Bretherton revelou, pois, ser um contributo para a construção de uma visão científica holística da Terra e uma ferramenta epistémica crucial para a formação do consenso na comunidade das Geociências de que o Sistema Terrestre requere investigação interdisciplinar.

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