Correio do Minho

Braga, sábado

Produtividade: o que é ? É importante?

Menina

Ideias

2017-03-04 às 06h00

António Ferraz

Otermo produtividade usado por analistas económicos e políticos não é muitas vezes bem entendido pelas pessoas. Sendo assim, vamos intentar prestar algum esclarecimento, tarefa nada fácil, sobre o significado e importância do termo produtividade em Economia. Para isso recorreremos a exemplos de Portugal e da UE-28. Começaremos então por dizer que a produtividade em geral traduz “a relação entre uma certa quantidade produzida e um ou vários factores necessários para a obter”. Dentre esses factores assume particular relevo o factor trabalho de tal forma que podemos afirmar que a produtividade é dada pelo “rácio entre a riqueza produzida ou produto interno bruto (PIB) em volume e o emprego” ou ainda, por outras palavras, a produtividade é medida pela “riqueza produzida (PIB) por hora de trabalho”. Note-se que não podemos associar, como muitas vezes sucede, “mais horas de trabalho a uma maior produtividade”. Na verdade não existe nenhum estudo teórico ou empírico que o possa afirmar.
Dados estatísticos obtidos no Instituto Nacional de Estatística (INE) e na Organização para a Cooperação Económica Mundial (OCDE) e para o ano de 2015, revelam que uma maior quantidade de horas trabalhadas não se associa a uma maior riqueza produzida (PIB) em termos anuais: a Alemanha, o país da União Europeia (UE) onde se trabalha menos (1300 horas anuais por trabalhador), é onde o índice de produtividade é o maior (126,9, sendo a média da UE igual a 100), enquanto a Grécia, o país onde se trabalha mais (2026 horas anuais por trabalhador), o índice da produtividade é de apenas 68,2. A situação em Portugal também não é muito favorável (1865 horas anuais por trabalhador) com um índice de produtividade de escassos 68,8 (um valor muito perto do grego). A Espanha, pelo contrário, possui uma situação mais confortável com um índice de produtividade de 99,8. Assim, se abstrairmos do diferencial de inflação, poderíamos inferir que enquanto na Grécia e em Portugal cada trabalhador produz 21 euros por hora (em Espanha, 34,6 euros), na Suécia e na Alemanha cada trabalhador produz valores bem superiores de 57,3 euros e 51,3 euros, respectivamente.
O que explicará em termos económicos tais diferenças de produtividade? Podemos afirmar que num mundo globalizado em que vivemos o que faz a diferença é o conhecimento, a criatividade e a inovação. Assim, se uma sociedade não acompanha a evolução constante e rápida desses três factores é certo que se atrasará tornando-se numa economia mais débil em termos competitivos. Contudo, o factor nuclear reside mesmo no sector da educação (dos níveis de escolaridade) dos trabalhadores em geral. Exemplificando, na Alemanha, 46,3% dos trabalhadores concluíram o ensino secundário e 46,9%, o ensino superior e apenas 6,7% são os que têm o ensino básico. Em Portugal com um cenário muito diferente os trabalhadores possuindo habilitações secundárias (19%) e superiores (19%) são uma minoria quando comparados com 61% dos trabalhadores que somente tinham como qualificação o ensino básico.
As estatísticas oficiais tem vindo a apontar para uma ligeira melhoria do índice de produtividade no País, na última década, porém, este ainda se situa num patamar muito baixo, ou seja, a produtividade do trabalho em Portugal é de apenas 68,8% da verificada na média da UE-28 (índice igual a 100) e, desta forma, ainda bastante aquém do exigido para que haja perspectivas de crescimento económico sustentado e de criação de novos empregos. O baixo nível de produtividade do trabalho tem vindo a ser, aliás, um problema estrutural (de longo prazo) da economia portuguesa e, como tal, fortemente bloqueador de um maior dinamismo e de uma maior competitividade de nossa economia num mundo altamente globalizado.
Concluindo, poderíamos questionar sobre o aparente paradoxo verificado em Portugal na última década (apesar da crise financeira desde 2008), o de ter vindo a avançar com significativos investimentos em formação, inovação, tecnologia e infra-estruturas públicas e apesar disso a produtividade do trabalho se manter ainda bastante abaixo do desejado. Terá como razão principal a fatalidade com que temos de viver, resultado da nossa cultura e forma de estar na vida e no trabalho? Ou será, porque não temos apostado (ou pouco) noutras vertentes em que tenhamos vantagens relativas? Ou ainda será, que precisamos é de melhores técnicas de organização e gestão das empresas, de menos iliteracia e, em particular, de níveis muito mais elevados de educação e formação de trabalhadores e empresários? Parece-nos então que se essas medidas forem tomadas então com certeza que as mudanças realizadas levarão a uma mais rápida aproximação dos índices de produtividade e bem-estar entre Portugal e a média europeia.

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