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2019-04-24 às 06h00

Carlos Pires

A Páscoa é uma festividade importante para os cristãos, pois celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, um episódio bíblico interpre- tado como a passagem para novos tempos e novas esperanças para a humanidade. Ora, a julgar pelos recentes e perturbadores acontecimentos nacionais e estrangeiros, julgo que os próximos tempos não serão nada calmos.
Senão, vejamos:
1. Em plena Semana Santa, o país lidou com a greve dos camionistas e com a corrida desenfreada aos postos de combustível. O recém criado Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas, e que agrega 600 trabalhadores que até hoje eram praticamente desconhecidos na realidade sindical portuguesa, conseguiu lançar uma greve que semeou o caos, que nos mostrou por uns dias o que é “viver na Venezuela”, em parte pelo incumprimento dos serviços mínimos que tinham sido decretados pelo Governo. A crise energética veio evidenciar a dependência que o país mantém dos produtos petrolíferos, mas evidenciou também que estávamos impreparados para lidar com uma crise como esta. Foi mesmo uma antevisão do que vai ser o ano de 2020: luta e instabilidade. O que não deixa de ser estranho, atenta a composição atual do governo-geringonça - afinal a presença do PCP e do BE no governo não é garante de “paz social”.
2. Na Madeira, um acidente com um autocarro provocou a morte de 29 pessoas. O Presidente da Região Autónoma, Miguel Albuquerque, encontrava-se de férias (ao que se julga saber, no Dubai), e nesse estado permaneceu serena e impavidamente, decidindo pois não interromper o descanso. Independentemente das culpas no evento lesivo, e do profundo respeito pelas vítimas e seus familiares, pergunto: o turismo, esse setor que tem sido responsável pelo “sustento” do país, não terá sofrido um sério abalo? Tanto basta para censurar a atitude (irresponsável) de Miguel Albuquerque. Dos políticos devemos exigir mais. Este também me parece um repto válido para os tempos vindouros.
3. A catedral de Notre Dame ardeu e Paris não será a mesma. Custou muito, não só aos parisienses, aos franceses, mas a todos nós, vermos em direto a destruição parcial de um património que também é do mundo. Como é possível tal acontecer, assim, nos dias de hoje, pergunto-me. Pelo menos dois empresários, ligados ao comércio de roupa de luxo, já anunciaram que vão ajudar financeiramente nas obras de reconstrução. Ao mesmo tempo, em Estrasburgo, o presidente do Parlamento Europeu, pediu a todos os eurodeputados que doassem o seu salário desse dia para o mesmo fim. Aplaudo as iniciativas mas lamento não ter visto a mesma ação de solidariedade perante outros eventos, recentes, de destruição, de bens e de vidas, como o que se abateu sobre Moçambique e que tantas pessoas deixou à mercê da fome e da cólera. A vida humana tem cada vez menos valor, perante uma sociedade que (incólume) habituou-se a que guerras e fenómenos naturais aniquilem, cada vez mais, os que já são tão pobres e desprotegidos. Mais um (infeliz) sinal dos tempos que correm.
4. Chegados ao Domingo de Páscoa e eis que o mundo acorda para um dos mais mortíferos atentados terroristas de que há memória: 321 mortos no Sri Lanka, incluindo um turista português, num ataque bombista concertado e promovido por extremistas islâmicos (suspeita-se que apoiados por organizações internacionais!) contra turistas e cristãos. Foi também confirmado que os serviços secretos tinham sido avisados 14 dias antes, mas desvalorizaram o perigo. O terrorismo está longe de terminar, é um problema global, independentemente de fronteira, raça ou religião. E por falar em religião, sim, a intolerância religiosa continua a ser um dos fortes propulsores do terrorismo (no domingo foram islâmicos contra cristãos, mas no passado dia 15 de março foram 50 os mortos em sequência de ataque a duas mesquitas, na Nova Zelândia). As redes sociais, os próprios media, têm sido garantes de visibilidade e ampla publicidade, o ópio de que precisam e reclamam os agentes do terror. Urge um pacto de todos os Estados que contrarie essa finalidade dos terroristas.
Esta foi uma Páscoa com sabor amargo. A prova de que vivemos numa sociedade potencialmente explosiva, onde múltiplas exclusões se agudizam a cada dia que passa. E quando tudo treme, o risco de tudo ruir é enorme, basta um pequeno deslize. Quando faltam as “boas notícias” há que olhar para o futuro, mesmo que ele seja incerto ou sem esperança.

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