Correio do Minho

Braga,

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Pseudo-acontecimentos

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2012-03-04 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Nem tudo o que acontece vem nos jornais e nem tudo o que vem nos jornais acontece espontaneamente. Muitas vezes (demasiadas vezes!), o que lemos reflete estratégias de comunicação preparadas para dirigir a opinião pública em determinado sentido. É aquilo a que se chamam pseudo-acontecimentos, ou seja, eventos que apenas existem para que os jornalistas procedam à respetiva cobertura mediática. Seria bom todos perceberem que nem sempre os efeitos são assim tão previsíveis ou fáceis de controlar. Vejamos alguns exemplos.

Roteiro pelo interior promovido pelo secretário-geral do PS. Durante uma semana, António José Seguro deixou-se passear pelo chamado país real para perceber melhor algumas zonas remetidas para persistentes espirais do silêncio. É de louvar a iniciativa, claro está. No entanto, este périplo pelos concelhos esquecidos é muito mais do que uma oportunidade para conhecer outras realidades. É, acima de tudo, uma estratégia mediática bem pensada. Longe do contraditório a que se vê obrigado na Assembleia da República ou no Largo do Rato, o secretário-geral do PS vai montando sucessivos palcos em terrenos almofadados por autarcas socialistas, permitindo-se aí falar do que quiser. Não poderia ser mais eficaz na mensagem a transmitir. No entanto, com isso, Seguro não conseguiu neutralizar a falta de sintonia da sua bancada que, na 6ª feira, se mostrou unida na disciplina de voto no diploma da Reforma Administrativa, mas completamente desalinhada nas impressões tecidas à volta daquilo que se passou no hemiciclo.

Uma justiça hipermediatizada, mas também muito paralisada. Nunca como hoje os processos judiciais foram alvo de tantas notícias. Aliás muitos casos, antes de chegarem aos tribunais, constituem-se como tal nos meios de comunicação social. Neste complexo terreno, jogam-se insondáveis interesses e destroem-se reputações de forma completamente irreversível. A curto prazo, a noticiabilidade produzida tem efeitos naquilo que os cidadãos pensam sobre determinada questão ou pessoa, ainda que a médio prazo (aí os atrasos dos tribunais!) não se venha a confirmar aquilo que no discurso jornalístico era tido como irrefutável. Veja-se o caso Freeport, que esta semana começa a ser julgado no Barreiro. Tanto se disse sobre corrupção, sobre contaminação da justiça pela política, sobre o envolvimento do então primeiro-ministro José Sócrates... Tantas fontes citadas, tantos juízos elaborados em praça pública para, no fim, terminarem em julgamento apenas dois arguidos acusados de extorsão.

Pandemias mediáticas, mortes silenciadas. Todos os anos, por esta altura, os media enchem-se de notícias sobre a tradicional gripe de Inverno. As mortes são tidas como consequência normal disso. No entanto, os responsáveis pela saúde tentam sempre fazer valer pontos de vista que lhe garantam um controlo do pânico das populações. Ontem, nos jornais, apareceram especialistas a falar de outra variável como causa para o elevado índice de mortalidade: a crise económica. O Director-geral de Saúde considera estas declarações “precipitadas”. Uns e outros têm impacto naquilo que julgamos ser a verdade, embora estas posições sejam frequentemente leituras subordinadas a exigências mediáticas. Lembram-se da gripe A? Foi uma gripe que aconteceu sobretudo nos media.

E lá vamos nós saltando entre quase-acontecimentos, muitos deles sobrevivendo apenas discursivamente. Tal significa que a importância daquilo que se noticia deve ser sempre relativizada, embora não seja assim que o cidadão comum se relaciona com os media. E é exatamente porque o grau de iliteracia é elevado que tudo parece funcionar bem. Não deveria ser assim. Se não houvesse tantos pseudo-acontecimentos, olharíamos mais para aquilo que existe, em vez de andarmos pendurados em balões de ar.

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