Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Puro Amor

‘O que a Europa faz por si’

Conta o Leitor

2014-07-31 às 06h00

Escritor

Mão do Coração

Jonas Samuel acordara cedo com um amargo sabor de vazio na Alma. Levantou-se nas suas últimas forças e dirigiu-se ao cais, onde Melissa Borg, a dona do seu mais sublime sentimento, tinha partido, entre soluços de lágrimas, agarrada a si, na noite anterior.

A vida dos dois parecia sucumbir de tanta tristeza. Melissa, numas análises de rotina, um hemograma simples, fora informada pelos médicos que uma leucemia galopante a venceria num espaço curto de vida. Não chorava por si nem tão pouco pela sua ténue vida, mas sentia-se derrotada e desnuda d'alma porque adivinhava que Jonas e sua família não aguentariam tanta dor.
Sabia que as hipóteses de cura eram muito escassas e, por conseguinte, doía-lhe ferozmente a culpa de estar doente, o que deixaria mais doente ainda o seu grande amor, Jonas.

Quis evitar este último encontro, esta última prova dura da verdade e enviou uma mensagem ao namorado desculpando-se duma indisposição ligeira.
- Ok! Até amanhã, beijinho e as melhoras, meu amor! - Respondeu Jonas. Mas, passados dez minutos, apanhava o autocarro para o centro de Liverpool, cidade onde morava Melissa com os pais, o avó paterno e dois irmãos menores.

Na porta principal da casa, parou surpreendido por um choro compulsivo e logo reconheceu a doce e meiga voz de Melissa que lastimava com o avô:
- Avô, depois de eu partir contas ao Jonas, não é? Promete vovô do meu coração! Eu não quero que sofram e muito menos o meu querido Jonas - suspirou de profundo sentir.
- Prometo que lhe contarei, meu amor, minha querida neta. Sossega! Não te preocupes e tenta descansar um pouco princesa!

Melissa esticou as pernas desmaiadas, pelo sofá sem forças, mas não conseguiu relaxar. Um rodopio de múltiplos pensamentos acercava-se de si sem cessar, estava inquieta sem saber como contar tão horrível notícia ao seu querido Jonas que tanto amava. Contudo, não foi preciso fazer ou dizer mais nada… Jonas empurrou a porta com ira e entrou em lágrimas copiosas, repetindo o que ouvira, num ímpeto de grande dor e, aparentemente frio, perguntou:
- Que escondes mais de mim, Melissa!?
- Nada mais que isto, o já tanto, amor! Vamos ficar ausentes talvez para sempre um do outro, querido! Eu não tenho medo, mas aterroriza-me a ideia de nunca mais vos ter ao meu lado e não vos poder acariciar, amar. Não quero que sofram por mim, mas eu não tenho o poder de o evitar dentro dos vossos corações, anjo da minha vida!

- Logo à noite, partirei para Los Angeles. O avô - disse gaguejando a custo - já telefonou a comunicar à Clínica que ficarei lá internada, em tratamentos, até encontrarem um dador de sangue compatível com o meu. Restam poucas esperanças, mas eu fá-lo-ei por ti, por todos nós!
Gritos mudos se formaram guturalmente graves e horrendos na garganta de Jonas, mas ele pacientemente acenou com a cabeça e respondeu num doce sorriso:
- Muito bem, minha amada princesinha, ficarei no cais da nossa praia à tua espera, todos os dias, até tu regressares para a nossa vida!

Seis meses se passaram arrastados e dolorosos até aos ossos, mas Jonas nunca desistiu e, embora as ondas do mar se tivessem acinzentado pela demora de Melissa, o seu amor por ela continuava mais vivo que antes e a esperança de um dia a abraçar de novo cheia de vida e amor não morrera nem por segundos.
A promessa mantivera-se fiel e o seu amor verdadeiro e puro por Melissa também.

A cada manhã que se dirigia para o cais e, enquanto atirava areias distraidamente para a água em círculos nostálgicos, monologava exteriormente, de forma convicta e crente:
- Senhor, é hoje que surgirá, na orla da espuma das ondas, a embarcação que trará para mim o meu amor, não é? Obrigada, BOM Deus! Eu espero... Esperarei SEMPRE!
Dois anos os separaram, no tempo perdido. Apenas a luz do puro amor se mantivera acesa no coração de ambos. Raiavam os primeiros sinais do sol matinal, numa doce manhã de Maio. Jonas, movido pela promessa que fizera a Melissa e a si próprio, voltou à praia, onde se haviam despedido, há dois anos atrás, em compulsivos soluços de dor.

As breves ondas, preguiçosamente, continuavam a beijar os pés de Jonas e depois se afastavam brandamente, satisfeitas pela rotineira, mas bela tarefa cumprida. Jonas virou as costas em desalento, o trabalho o esperava e ninguém se preocupava se ele se sentia destruído por dentro, mantendo apenas vivas, a presença física e a esperança. Já mal sentia, em puro esquecimento e ausência de espírito, as sôfregas e desalentadas batidas do coração.

Parara no cimo da ‘Duna do Amor’, como ambos lhe chamavam, de mãos pressionadas sobre o rosto, limpando as lágrimas que insistentes rolavam quentes até seu queixo e se deixavam depois aconchegar por entre os lábios frios e agressivos de desilusão. Ao seu lado, mantinha-se com olhar curioso e intrigado o seu cão, fiel amigo Joker, que num trejeito do focinho, amarelo e branco, parecia sorrir.

Surpreso e atónito com a atitude de Joker seguiu o mesmo percurso com o olhar, volvendo-se ligeiramente e avistou um barco que se aproximava da costa, mas continuou a enterrar os pés na areia da duna, num misto de raiva e desespero. Tinha de voltar a casa, tomar um duche quente e refugiar-se no escritório, onde trabalhava em burocracias de fiscalização, há dez anos. Porém, desta vez Joker não o acompanhou, permanecendo estático no mesmo lugar, abanando a cauda com um uivo de festejo que Jonas desconhecia.
- “Não vens, Joker”? - Perguntou retoricamente ao seu fiel amigo, enquanto prosseguia agora em passo mais acelerado.

O barco já chegara ao cais e uma linda jovem loira se despachava, entre os passageiros, em direcção à íngreme ponte de madeira que a conduziria à praia. Joker não teve mais dúvidas e correu desatinado até ela. Cheirou-lhe os pés com doçura e não mais a largou, latindo para ela, em sinal de boas vindas. Jonas percebeu então que acabava de receber o milagre que tanto pedira a Deus em oração. Olhou para o Céu, em breves e espontâneos instantes, sorrindo e chorando de mãos levantadas para o Alto. Era a sua Melissa que voltava, estava diferente, exteriormente, sua tez perdera a cor, dádiva divina do sol “daquela praia deles”, mas o sorriso expansivamente alegre de criança se mantinha. Após um longo ano de tratamento e sucessivas tentativas de encontrar um dador compatível, uma jovem de raça negra, de 19 anos, a Salomé, a salvara sem hesitar de olhos rasos de lágrimas de tanta felicidade que se misturaram com as de Melissa, num longo abraço de profunda e terna amizade.

Depois disso tudo recomeçara então e a jovem, cansada da viagem e na tentativa de esquecer tudo, pediu a Jonas que não lhe perguntasse mais nada, ao que este acedeu feliz, abraçando-a contra si cheio de ternura cúmplice.

Felizes voltaram devagar, em direcção a casa, seguidos por Joker que saltava e latia sem parar, onde a família os esperava em ansiedade e alegria. Sabiam da chegada de Melissa, sentiam saudades do seu doce abraço, mas também sabiam que os dois precisavam reencontrar-se e ficar um pouco sós. A vida deles tinha sido interrompida por um doloroso e súbito pesadelo. Chegara a hora de retomarem o seu grande amor e avivarem a esperança que nunca tinham perdido!

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