Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Qual é a pressa?

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Ideias

2013-05-14 às 06h00

Jorge Cruz

A pergunta lançada há tempos pelo secretário-geral do PS e que foi largamente glosada na comunicação social, e não só, parece ter agora perfeito cabimento em Braga, pese embora o facto de estarmos perante factos e circunstâncias bem diferentes.

Qual é a pressa, apetece perguntar, quando assistimos incrédulos à polémica decisão tomada pela maioria socialista da Câmara Municipal de Braga na reunião da passada semana.
Qual é a pressa, insisto, em avançar para a expropriação, além do mais com carácter de urgência, de três imóveis contíguos à Casa das Convertidas, alegadamente para a construção de uma Pousada da Juventude.

Desiludam-se aqueles que possam pensar que, nesta crónica, vou alimentar o “circo” que foi montado em redor deste inacreditável processo. Não, não surfarei essa onda, pelo que nesta reflexão nada direi sobre a titularidade das propriedades, sobre alegados negócios familiares ou outros quejandos.
Aquilo que me parece importante analisar neste processo é a solução agora encontrada pelo município para a construção da já famigerada Pousada da Juventude. E, já agora, o timing escolhido. Que, obviamente, não é irrelevante.

Como é do conhecimento público, a proposta primitiva apontava para o Convento de S. Francisco de Real, um imóvel em adiantado estado de degradação e que, à boleia da Pousada, seria finalmente recuperado. Segundo alguns especialistas, esta não seria a utilização ideal para o monumento mas tinha a vantagem de evitar a sua ruína total, salvaguardando o mais possível a integridade arquitectónica. Como quer que seja, o processo borregou, isto é, acabou por não ter pernas para andar, por falta de financiamento. A suspensão do QREN, por um lado, e a liquidação da Movijovem, entidade que geria a rede de pousadas juvenis, por outro, condenaram o projecto ao fracasso.

Perante este impasse, a Câmara de Braga, através do vereador Hugo Pires, veio recentemente a público admitir a relocalização do empreendimento e a sua implantação no centro da cidade como, de resto, era reclamado por muitos e o bom senso aconselharia.

É, pois, neste quadro, um quadro de enormes incertezas, que a hipotética instalação da Pousada no espaço da antiga Casa das Convertidas começa a ganhar corpo e alguns adeptos. E uma vez mais a argumentação utilizada é rigorosamente a mesma que tinha servido para o antigo Convento de São Francisco, em Real, ou seja, a recuperação de um imóvel bastante degradado.
Ao pronunciar-se há tempos sobre o assunto, o presidente da Câmara parecia ter refreado os ânimos ao afirmar que “não adianta andar com sugestões em cima de sugestões”.

Mesquita Machado lembrou mesmo a importância de “encontrar o local mais adequado e conseguir que o projecto tenha financiamento comunitário”, garantindo que só nessas condições a Câmara estaria disponível para “assumir esta obrigação da administração central”.

Um pouco na mesma linha, o secretário de Estado do Desporto e Juventude disse há dias em Braga que a nova Pousada da Juventude “vai ter que esperar mais algum tempo” porque a entidade que geria a rede nacional de pousadas de Juventude “está em processo de liquidação” e o novo modelo de gestão “será implementado ao longo dos próximos meses”. Na altura, Emídio Guerreiro disse mesmo que neste momento insistir no debate sobre a pousada “é perder tempo” porque a futura estrutura terá que aguardar pela definição do enquadramento legal do processo. Dificilmente se podia ser mais claro.

Face a este conjunto de declarações dos dois responsáveis seria expectável fazer um compasso de espera, eventualmente aproveitado para entabular contactos e elaborar estudos que pudessem ajudar a tomar a decisão mais acertada. É também por essa razão que o avanço inopinado da Câmara é tanto mais surpreendente quanto é certo que a deliberação da vereação representa um autêntico tiro no escuro e, com tal “escuridão”, pode mesmo ter sido um tiro na cabeça da candidatura socialista. Acontece que, além de tudo o mais, a decisão foi tomada sem o suporte de quaisquer estudos, técnicos ou económicos, sem projectos e sem quaisquer garantias de financiamento.

Qual é a pressa? Avançar completamente às cegas para um processo de tamanha complexidade, repleto de incertezas, a menos de seis meses das elei-ções autárquicas não é um acto de coragem política mas sim uma inconsciência, diria mesmo uma irresponsabilidade política, que poderá ter custos demasiado elevados. E não estou a falar apenas sob o ponto de vista financeiro…

Além do mais, com esta incrível deliberação foi inviabilizado um conjunto de hipóteses alternativas, como seria o edifício da Francisco Sanches, o edifício da rua do Castelo ou parte das instalações do antigo Hospital de S. Marcos, para só citar alguns. E sem estudos comparativos sérios nunca saberemos qual seria a solução mais adequada e economicamente mais vantajosa.

Ou seja, se este processo for avante ficará sempre a dúvida sobre a bondade da solução adoptada contra tudo e contra todos, inclusivamente contra o bom senso.
Creio que, nestas circunstâncias, a interrogação tem perfeito cabimento: Qual é (foi) a pressa?

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