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Quando ‘Era uma vez’ se torna muitas vezes!

Contra a violência doméstica

Quando ‘Era uma vez’ se torna muitas vezes!

Escreve quem sabe

2020-02-25 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Tenho 15 anos, estou a terminar o 9.º ano e a vida sorri. Mas nem sempre foi assim. Não o foi de todo! Foi tudo tão rápido... coitada da minha mãe. Nunca acordava para mamar. A minha mãe é que me acordava não fosse eu morrer de fome. Às vezes ouvia a minha mãe dizer: “se não lhe mexermos até esquecemos que temos um bebé”. Comecei a andar muito cedo, pelos 9 meses, mas depois de um tombo fiquei cheio de medo. Só recomecei aos 16 meses e mesmo assim não era algo que eu gostasse muito. E falar? Falar não era comigo. Fazendo força com o meu corpo e apontando o que queria lá conseguia que a minha mãe me entendesse e percebesse tudo. E foi assim que consegui que a minha mãe se começasse a preocupar. Mas não foi bem acolhida nas suas suspeitas. Chegaram a dizer que ela devia estar com uma depressão pós-parto. Coitada! A minha médica só dizia para ela não se preocupar, era apenas o 1.º filho, e o mais lindo que ela já tinha visto. Mas as minhas palavras não saíram durante muitos anos. E fui também o maior dos problemas no que respeita à alimentação. Até a água me parecia fel! Mas eu também tinha coisas que adorava: tudo o que girasse! A ventoinha da sala, a roupa a lavar na máquina… Durante muito tempo isto foi a minha “marca registada”. Sempre que me pediam para imitar a máquina de lavar roupa eu girava o meu corpo de um lado para o outro como se estivesse no ciclo de lavagem, ou muito rápido, na centrifugação.

O meu primeiro dia de aulas na escola foi uma angústia. Não queria sentar-me junto a tantos meninos e meninas que sabiam fazer tudo como deve ser: como sentar, como falar, como olhar, como calar, como jogar, como correr… era lá possível! Mas ia sempre para a escola na esperança de que um dia, apenas e só um dia, me deixassem em paz. Já sabiam que eu era autista. E que tudo aquilo que era importante para eles não o era para mim. Ter um menino à minha frente, uma mesa ou uma cadeira, ou até um boneco de peluche era exatamente o mesmo. As pessoas e as suas emoções não eram importantes para mim. Todos os adultos insistiam, melhor “obrigavam-me” a ser igualzinho a qualquer um dos meninos que estava à minha volta. Mas eu não queria! Não era bem por querer, era mesmo por não poder. Eu era diferente! O tempo ía passando, e eu fui aprendendo tudo! Aprendi sozinho a ler, a contar… O computador era o meu maior amigo. Acho que foi com ele que eu aprendi todas as coisas. Um dia… um dia apareceu na escola uma professora de educação especial. Ela era exigente comigo: Come! Senta! Aqui! Ali! Jogo! Trabalho!Pequenas ordens que também tinham imagens para eu perceber melhor.. e uma agenda de rotinas. E as minhas birras? E o chão que eu tanto gostava de sentir e me fazia sentir em paz? E o computador que fazia tudo aquilo que eu queria?

Ahhhhh…. Também os tinha. Porque para além das regras e das rotinas que me ajudavam a antecipar as tarefas, a minha professora especial sabia o quão importante era para mim ter o que me era prazeiroso. Ninguém aprende sem prazer! Lembram-se que estou no 9.º ano? Não num 9.º ano qualquer! Este é um 9.º ano feito à minha medida. Mas imaginam bem o meu percurso nos 2.º e 3.º ciclos até “descobrirem” que afinal, afinal, muitas disciplinas curriculares não eram o mais importante para mim. Saber escrever (ainda hoje não sei escrever à mão) só passou a ser importante quando o passei a fazer no computador. Ainda bem que se lembraram de colocar o computador como auxiliar de acesso ao currículo! E foi com ele, o meu computador, que consegui chegar até hoje: não aprendendo o que era suposto aprender, mas aprendendo o que não era suposto aprender. Porque, a partir do 7º ano, a minha diretora de turma foi excelente. Ela valorizava tanto tudo o que eu fazia! … e em conjunto com a minha professora especial cheguei onde afinal sempre poderia ter estado: à minha diferença! Hoje, tenho 15 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. (eu é que ainda não).

Ups…Que engraçado… agora, que velhote!!! Estou numa nave espacial, ou será mesmo já numa estação espacial? E .. para não variar…. ao lado de um grande computador! E aqui, passando o meu testemunho, ajudando aqueles que, como eu, também choraram na escola por ser diferentes, também encontraram professores menos bons, mas, ajudando aqueles que, como eu, também sorriram na escola por ser diferentes, também encontraram professores bons, e... como eu, se tornaram maiores que a própria vida.

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