Correio do Minho

Braga,

Quando menos se espera, a felicidade bate à porta

Antecedentes… (parte II)

Conta o Leitor

2013-07-08 às 06h00

Escritor

Daniel Silva Pereira

Era véspera de consoada. Estava aborrecido, mas quando a mãe lhe perguntou o que se passava, simplesmente deu aos ombros fazendo uma cara diferente. Era realmente estranha a forma como ele estava naquele dia. Foi para a janela, ignorando os avisos que lhe eram dados. Sabia que era melhor estar no conforto da lareira, mas hoje Elísio queria espreitar a noite, como se fosse um lobo perdido sem medo da sua própria sombra. Ele sabia que amanhã era um dia especial, mas deveria ser como sempre: passado na penúria. Era um vulgar predestinado a rastejar, qual pássaro que nasce sem asas.

Era tarde. Bocejava, ainda, encostado à janela. Teresa, sua mãe, estava sentada junto à lareira, a fazer bordados para vender na praça. Nessa noite não trocaram nenhuma palavra. Eles no fundo dos seus seres e das suas almas gostavam muito um do outro, contudo não o esboçavam na realidade.

Elísio passou a noite às voltas na cama. Não tinha nada para oferecer à sua mãe e era certo que ela também não tinha nada para ele. Estava triste e preso a uma melancolia que nem sabia se iria ter forças para levantar da cama no dia seguinte. Acabou por adormecer. Tivera sonhos tão esquisitos, que quando acordou não sabia o que tinham sido ao certo. Eram cores misturadas e movimentos desequilibrados que o deixavam cair no fogo e no desespero a qualquer momento. Só de pensar nisso tivera um calafrio.

Estava na hora de se levantar, sentiu. Mais uma vez iria estar sozinho, pois era certo que a sua mãe já tinha ido à praça vender o que fizera na noite anterior. Lavou a cara e encarou o espelho. Não se conhecia com tais feições. Não era o mesmo. Assustou-se por repentinos momentos e como que a acordar daquela imagem ‘fugiu’ para a cozinha.

Em cima da mesa tinha um bilhete para si. Leu-o. Não tinha nada de diferente de todos os outros que a mãe lhe deixava. Era o mesmo de sempre. Tomou o pequeno-almoço e sentiu que não tinha nada para fazer. Mais uma vez um sentimento doentio apoderou-se si, sogando as réstias da sua alma. Foi ao presépio para tentar matar o tédio. Deu os retoques habituais, indispensáveis. Centrou e alterou a disposição das figuras, imóveis.

Entretanto bateram à porta. Era a sua mãe. Mais uma vez tudo se resumiu a um “bom dia”, seco. Trazia pão para o almoço e para o jantar. Trouxe alguns ingredientes para fazer doces e portanto Elísio apercebeu-se que a venda na vila não correra mal.

Na casa o cheiro a ovos e a canela penetrou por todo o lado e passaram o dia a preparar os doces natalícios. Reparou que não tinham uma grande ceia, mas tinham o suficiente para os dois e ainda devia sobrar. Elísio colocou uma vela no centro da mesa. Teve esta ideia de forma inconsciente, mas conscientemente sentia que a mesa onde comiam estava incompleta.

Começaram a jantar. A vela que colocara no centro da mesa ganhava formas, monstruosas, quando o jovem a mirava. Ele próprio sentia-se a derreter. Não sa-bia porquê. A vela apagou-se de repente e Elísio estremeceu como que a cair novamente no devaneio que o tragava.
Enquanto Teresa arrumava a cozinha, Elísio foi brincar com o automóvel de madeira que Efigénia lhe dera como prenda há dois anos atrás. Agora era impossível receber outra prenda vinda da sua vizinha. Esta morrera há cerca de um ano vítima de demência mental. Pensou que também estava a ficar louco. Sentiu um arrepio.

Estava quente dentro de casa, mas lá fora, como por magia, nevava sem cessar. O rapaz pensou no pai, que mal conhecia. Imaginou como seria o natal em sua casa passado a três. Tinha a expectativa imutável de ele um dia voltar. Um dia bater à porta.

Esse sonho, confortante, durou horas. A sua mãe estava agora também à lareira a bordar peças em linho quando bateram à porta. Demorou segundos a reagir e só despertou quando ouviu a mãe a pedir para ir abrir, mas agora, com um tom de voz mais elevado. Não queria acreditar! De certeza que seria um homem com a voz grave que abriria os braços e iria aconchegá-lo ao seu peito. De seguida chamá-lo-ia de filho. Entre os traços que se lhe podiam denotar no seu pai, Elísio decorou um que nunca mais lhe esqueceu: a sua voz. Exceto este sabia apenas que se chamava Raimundo.

Quando foi à entrada estava pronto para enfrentar o reencontro, mas para sua frustração deparou-se com um vulto que não conheceu. Seria apenas mais um moribundo esfomeado. Estava embuçado e pareceu espantado quando se deparou com Elísio. Teresa mandou-o entrar. Serviu-lhe a comida do jantar que sobrara. Foi suficiente para saciar o “estranho”. Este quase não lançou nenhuma palavra, dizendo apenas que vinha de uma terra longínqua para remediar o passado. A voz dele parecia não ser “estranha”.

Antes de sair ajustou os farrapos que lhe cobriam o corpo, escanzelado. Elísio acompanhou-o. O sujeito acenou e agradeceu com um “obrigado”, caloroso, antes de entrar na noite fria e desaparecer na escuridão, faminta. Era quase Natal. Olhou para o céu antes de fechar a porta, mas o nevoeiro tapava por completo os ares. Parara de nevar.

Deixou-se levar pelo regalo da fogueira. Faltavam apenas alguns minutos para os sinos tocarem e as outras pessoas aldeia começarem a abrir os presentes. Mas, ali entre as quatro paredes daquela casa modesta de pedra no cimo da colina, apenas se estava à espera do tempo. Ficou emocionado com a possibilidade de ter sido Raimundo momentos antes. Refletiu sobre a frieza que ele tinha vindo a ter com a sua mãe. Isso tinha de mudar. Aquela batida na porta mudara o rumo da sua vida. Voltara a ter vivacidade.

Pouco depois, os sinos tocaram e embalaram a aldeia e arredores. Levados por uma magia inexplicável, Teresa e Elísio, abraçaram-se. Entraram num sonho desigual entre os outros sonhos, mas uma fantasia que os dois viviam, intensamente. Elísio sentiu os males que o perseguiam a abandonarem a sua alma. Sentiu, também, que eram sinais que o afundavam na escuridão da solidão e do desespero. Era o primeiro abraço sincero entre os dois. Este foi o melhor presente de sempre. Sentiram isso no coração. Elísio, ainda assim, sentiu a falta do pai.

O rapaz mal o conhecia, é certo, mas a voz daquela noite não lhe fora estranha. A chama aumentava dentro de si. Poderia ser Raimundo, aquele homem raquítico e mal tratado! Continuava com esperança de encontrá-lo e que o próximo abraço fosse repartido a três. Assim vivia nesta ilusão chamada por todos de ‘esperança’ e sendo esta a ‘última a morrer’ iria em busca daquele semblante, agora ‘familiar’.

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