Correio do Minho

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Quando o acento está a mais

Uma vergonha

Quando o acento está a mais

Escreve quem sabe

2019-05-05 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

As regras de acentuação são várias e, por vezes, causam-nos dúvidas. Há um conjunto de palavras que, frequentemente, surgem mal acentuadas. Hoje, trago algumas delas.
Acerca (de) é uma locução prepositiva que significa "a propósito de", "quanto a", "a respeito de". Escreve-se sem acento e não *"àcerca", como encontramos neste título: “O que dizem os líderes àcerca do Jornal de Negócios – 7” (em https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/o-negocios/detalhe/o_que_dizem_os_lideres_acerca_do_jornal_de_negocios___7, acedido em 30-04-2019).
A palavra “bebé” é aguda, acentuada na última sílaba com acento gráfico agudo, pois termina em “e”. Todavia, não é raro encontrarmos a palavra escrita com dois acentos agudos (*bébé), como acontece neste artigo “O que é o síndrome de bébé Michelin?” (em https://www.tsf.pt/programa/informacao-inutil/emissao/o-que-e-o-sindrome-de-bebe-michelin-4314342.html, acedido em 30-04-2109).
As palavras, em português, só podem ter um acento, com exceção daquelas que são separadas por hífen (ex.: dá-lo-á; água-de-colónia). Ressalve-se que o til (~) não é um acento, mas um sinal gráfico que marca a nasalidade, pelo que palavras como “órfão”, “bênção” ou “sótão” têm apenas um acento (agudo ou circunflexo).

A palavra “comboio” não é acentuada graficamente no ditongo (oi), quer segundo a grafia de 1945, quer segundo a atual. Contudo, o Turismo de Lisboa refere, na sua página, que a melhor forma de conhecer Lisboa e Cascais é viajando de *combóio: “Lisboa - Cascais por Combóio” (em https://www.visitlisboa.com/pt-pt/node/1172, acedido em 30-04-2109). Por seu lado, o Correio da Manhã dá conta que, no Bombarral, “duas pessoas (foram) colhidas por combóio” (em https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/bombarral-duas-pessoas-colhidas-por-comboio, acedido em 30-04-2109).
No novo Acordo, as palavras agudas terminadas em ditongo (oi) continuam a ser acentuadas graficamente (ex.: herói), mas as graves (seguindo o exemplo de “comboio”) não são acentuadas (ex.: heróico).

A cor [ô] do casaco é azul. Sei a tabuada de cor [ó]. As palavras destacadas são homógrafas, isto é, têm a mesma grafia, mas pronúncia e significado diferentes. No entanto, nenhuma delas é acentuada graficamente. Tal como a palavra “comboio”, esta já não é acentuada deste o Acordo Ortográfico de 1945, por conseguinte não podemos “culpar” a nova ortografia por este erro tão recorrente. Na página do Continente online lemos “Lápis Côr Ergosoft Aqua” (em https://www.continente.pt, acedido em 30-04-2109) e na do Corte Inglês, encontramos à venda “Toalhitas para Lavagem de Roupa de Côr” (em https://www.elcorteingles.pt/supermercado, acedido em 30-04-2109);
Outros exemplos semelhantes são as palavras “flor”, “dor”, “amor” e outras palavras agudas terminadas em "or".

A palavra “juiz” é uma palavra aguda, isto é, com acento tónico na última sílaba, mas sem acento gráfico no “i”, quando este não forma ditongo com o “u” anterior e está seguido de “z” em fim de sílaba. Errou, pois, o jornalista do Sol, quando escreveu “Juíz é suspenso depois de mandar vítima de abuso sexual "fechar as pernas" (em https://sol.sapo.pt/artigo/652566/juiz-e-suspenso-depois-de-mandar-vitima-de-abuso-sexual-fechar-as-pernas acedido em 30-04-2109);
De notar que o feminino e o plural se escrevem com acento gráfico agudo (juíza, juízes), pois são palavras graves, acentuadas na penúltima sílaba.
Quem não conhece um Raul? E um Raúl?

Apesar de encontramos “Raúl”, na página 56 da lista de nomes próprios de cidadãos portugueses registados em 2017, (Instituto de Registos e Notariado, http://www.irn.mj.pt/sections/inicio), a palavra é aguda, isto é, com acento tónico na última sílaba. Segundo a regra de acentuação, as palavras agudas não levam acento gráfico no “u” tónico, quando este não forma ditongo com a vogal anterior “a”, e está seguido de uma consoante que não o “s”. Deve, pois, escrever-se Raul.
“Inclusive” entrou diretamente do latim. Escreve-se sem acento, embora se pronuncie "inclusivé". Podemos substituir pelo advérbio sinónimo “inclusivamente”. Por isso, frases como “Para a tarde, estão agendadas sessões para as 15h00 (crianças dos 6 aos 9 anos, inclusivé)”, publicada na página da Universidade do Porto (em https://noticias.up.pt/u-porto-junta-musica-e-dinossauros-em-curso-para-bebes-e-criancas/, acedido em 30-04-2019), e esta, publicada na página da Universidade Nova de Lisboa -“do 1.º -> 2.º a partir de 36 ECTS (inclusivé)” - (em https://www.fct.unl.pt/en/faq/quantos-creditos-sao-precisos-para-se-passar-de-ano, acedido em 30-04-2019), estão erradas e devem ser revistas.
Boa semana.

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