Correio do Minho

Braga, sábado

Quando o céu está iluminado por estrelas

Mobilidade Sustentável

Ideias

2016-12-06 às 06h00

Cristina Palhares

Foi na manhã deste sábado, numa iniciativa do Programa de Enriquecimento nos Domínios da Aptidão, Interesse e Socialização (PEDAIS) promovido pela ANEIS que o céu se iluminou de estrelas, para um punhado de meninos e meninas. De manhã, sim. No planetário de Gualtar, na Casa da Ciência de Braga. E estes meninos e meninas, viram um céu cheio de estrelas, com muitos nomes, tantos quantos os que lhe atribuíram significado, dando-lhes formas de animais, de objetos, de deuses e deusas. O mesmo céu iluminado por estrelas que todas as noites, invariavelmente, de há muitos e muitos anos, ali estão… a brilhar para nós. Iluminando o nosso céu.

A nossa perceção diz-nos que elas nascem, brilham e desaparecem, metade do dia num hemisfério, ora noutro, movendo-se pelos céus à velocidade de anos-luz.
A nossa perceção diz-nos, sim. Mas a realidade afinal não coincide com a nossa perceção. Pois não. Fez-me lembrar todos os meninos e meninas que ali estavam. Olhei-os.
A minha perceção é uma.

A realidade outra bem diferente. Cada menino e menina, naquele planetário, cada menino e menina, de uma qualquer sala de aula, cada menino e menina, de qualquer canto do mundo, é como uma destas estrelas: percecionados por nós, olhados por nós, brilhando para nós, … e quem os vê, nós, valorizando-os de uma maneira diferente, interpretando o seu brilho de uma maneira diferente, percecionando-os de maneira diferente.
Porquê?

Porque tal como todos os meninos e meninas que olhavam o céu iluminado pelas estrelas, nesta manhã, aquilo que percecionavam estava distante, muito distante, quem sabe a anos-luz, da realidade. Tal como nós, nós os adultos, os professores, os educadores, os pais, os profissionais… que tentam tornar realidade aquilo que é percecionado, tal como nós, os adultos, esquecem que a perceção não é coincidente com a realidade. Tal como o nosso olhar sobre estes meninos e meninas também não o é.

A nossa perceção engana-nos. A nossa perceção está “carregada” de preconceitos, de medos, de que o “desvio” da normalidade, a diferença, a unicidade, é um acrescentar de problemas. De que “mais vale” não ver, “mais vale” tornar igual aos outros, “mais vale” fingir que somos todos iguais. A diferença assusta… sem dúvida! Mas como seria o céu iluminado por estrelas todas do mesmo tamanho, todas com o mesmo brilho, todas desenhando figuras perfeitas e uniformes…
Como seria?

Seria por certo entediante, e não teria por certo também um punhado de meninos e meninas olhando para o céu iluminado por estrelas!
Não estariam ali tanto meninos e meninas tentando descobrir formas, desenhos, intensidades, junções, afastamentos, … percorrendo a história, as descobertas…, não estariam, não.
Não estaríamos nós, olhando tantos meninos e meninas, e descobrindo o seu brilho, olhando para lá da perceção que nos leva a acreditar que os brilhos são todos iguais. Não, não são. A realidade é bem diferente. Que bom!

Todos estes meninos e meninas têm um brilho diferente.
Todos estes meninos e meninas merecem que o seu brilho seja projetado a lunos-luz, para lá do que a nossa perceção alcança.

E isso só acontece porque nós, os adultos, nos despimos de preconceitos, nos despimos de técnicas e pedagogias que alguém se lembrou de implementar a todos, nos despimos de acreditar que a educação deve ser igual para todos. Não… deve ser diferente para todos.
Respondendo de maneira diferente a todos os diferentes, não é esta a máxima da igualdade?

Porque tratar todos como iguais, isso sim, é a máxima da maior das desigualdades. Tal como as estrelas… nenhuma é igual a nenhuma, Algumas são parecidas, na intensidade, no brilho, no calor, na velocidade, no tamanho… sim. Parecidas. Daí que tenham também necessidades parecidas o que leva a respostas parecidas. Tal como este punhado de meninos e meninas que viram o céu iluminado pelas estrelas. São parecidos… apenas isso.
E assim a nossa perceção, quando ajustada às caraterísticas e necessidades se torna mais próximo da realidade.

E faz brilhar cada um destes meninos e meninas, porque sabemos que é o brilho de cada um deles e de cada uma delas que ilumina o céu, numa manhã de sábado. Se assim não fosse, por certo, não estariam ali tantos meninos e meninas olhando um céu iluminado por estrelas, numa manhã de sábado.

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