Correio do Minho

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Quando o homem chora

Regiões, Áreas Metropolitanas e CIM no Relatório da Comissão

Conta o Leitor

2014-08-30 às 06h00

Escritor Escritor

Luciano Baetz

E esta dor que mutila os sentidos, jaz desde o anoitecer… Fere minh´alma, com impiedade, zombando-se, escarniando-se dos poucos sentidos que me resta, esvazia-me o corpo, extenuando a vida.
Sinto o meu joelho encostado em meu peito. Talvez esta comunicação seja um esforço miraculoso para combater a companhia desta dor de cabeça.
Ou talvez uma última agonia que profana o meu sentir.

Uma dor que escorre pelos cantos, misturando-se com o cheiro da roupa molhada, do suor que invade minha pele fria e agonizante.
Neste quarto escuro, esforço-me para encontrar motivos para sorrir, um sentimento tão fingido que de pranto são pisados por soluços.
Sinto-me um touro numa arena, com uma espada atravessada em minhas entranhas.
Apenas sinto vontade de fugir.
Já não ouço nada! Apenas gargalhas.
Já não ouço nada! Apenas o bater de asas.

Já não ouço nada! Apenas anjos escondidos no escuro com medo dos seus próprios demónios, zombam do meu estado humano medíocre e pequeno, à espera do último pulsar. É o sangrar do coração, com apenas um golpe.
Ao meu lado contemplo a companhia estúpida da solidão.
E eu que acordei tantas vezes ao lado de lindas mulheres.
Um dia destes, de forma lendária, talvez consiga vestir meu velho fato, tão surrado quanto meu corpo, e caminhe alheio perante os meus vizinhos.
Talvez pomposo ou alheio a todos, talvez.

Eu sei que sou o último da minha espécie, este é o meu fardo, esta é a minha pena, esta é a minha última maldição.
Carrego em mim o sofrer de todos os que amaram demais.
Este é o meu fado.
Não fui comerciante noutras vidas. Deambulei como um voluntário, espalhei o hálito da lascívia em cada toque, beijei todas as mãos que amei.
Eu beijei a tua mão todas as noites.
Qual feito justifica ser merecedor do amor de uma mulher? Se mesmo nas noites mais frias meu corpo te desejou.

Eu deveria ter sido boémio, talvez assim partilhasse com outros tristes o meu pesar.
Sinto o lado direito da minha cabeça adormecido, acaricio meu rosto até mimar sobrancelhas, minhas mãos quentes apertam minha testa como quisera esmagar a dor.
São as primeiras reações e efeitos secundários da ausência da pele quente e macia dos teus seios perfumados no meu rosto.
É o elixir da vida que se estingue quando deixamos de ser animais, é o meu lado direito que dói.
Invoquei alguns deuses em minha vida, mergulhei em rios profundos, no meu íntimo desejei o sexo com sereias e ninfas.
Até o dia que entendi o amor de uma mulher.

Até o dia que percebi sua pele invocar o toque do prazer. Desígnios e rascunhos de quem jamais teria paz.

A mulher da minha vida é aquela que me ama, dom maior tal feito advir.
Serei sempre o temperar dos momentos gourmet de lindas donzelas?
Serei sempre o minuto agonizante da espera dos teus passos?
A sua entrega é o seu corpo nu, desposada em mim, tão puro como o cetim.
Espero ansioso pelo sorriso, pelos lábios húmidos entreabrindo em minha direção com sua língua quente a pousar lentamente, timidamente a amalgamar com minha paixão.

Espero inquieto pousar as mãos em seu ventre, deslizar os dedos e senti-la quente e molhada como minha boca que se enche d’água de desejos salivantes.
E foi assim que seduziste com o sorriso de satisfação, golpeias o meu coração com lâminas de verbos, dissipando minha imaginação.
Assim te desejo mulher madura!
Assim te espero mulher nua!
Assim te espero com o arrepio na espinha do desejo fértil e ereto com apenas o imaginar do movimento febril dos teus lábios a falar na minha direção.

Carregarei toda a culpa dos maus amantes até a fonte dos desejos, lançarei bem fundo os insípidos da sua memória, e serei tão bom a fazê-lo que acreditarás em novas histórias.
Caminharei até a dor passar, com os olhos cansados!
O meu amor até ao amanhecer subsistirá à dor e ao quarto escuro, dissiparão as estrelas da madrugada, os pensamentos, o pranto e o vinho.
Porque a tua ausência me fere.
Porque beijei as tuas mãos todas as noites.

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