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Quantas Bragas falta celebrar?

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Quantas Bragas falta celebrar?

Escreve quem sabe

2019-10-02 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Já se celebra a Braga Romana e a Braga Barroca, dir-se-á que a Braga Contemporânea está sempre em festa em noites brancas, faltará então a Braga Medieval, a Braga Suevo-Visigótica e a Braga Árabe, isto tudo no pressuposto de que fiquem os fantasmas do mundo sossegados, caso não o fiquem, hão-de recorrer a outras, como já o ensaiaram os de Esporões quando se atiraram aos princípios da Braga Celta naquela serra da Falperra. Não seria mal achada uma Braga dos Descobrimentos e do Renascimento, enfim, que o tempo seja a dizer.

Vem isto a propósito da cidade e das tradições, assunto que está sempre em cima da mesa por mais que se arrepiem os da modernidade moderníssima, livre de todos os liames, agora a denunciarem-se temerosos de todos os futuros. O passado é causador de urticária a muita gente, o futuro o será em breve, se não está já a sê-lo com esta «adivinhação» que por aí vai sobre o clima. Vamos então ao assunto, que é este mesmo: as festas em pacote temático, coisa que serve sempre os propósitos do bulício urbano, do negócio, da mexida imaginária. Sou leitor de muita coisa e alguma dela de natureza problemática a tudo quanto penso e faço, mas necessária ao meu sustento de razões. A gente deve ler para poder dialogar. Gérald Bronner é um sociólogo, ligado às tecnologias e à medicina; a sua última obra tem o título curioso de «Déchéance de rationalité», ou seja, em tradução livre, Perda da racionalidade, ou insucesso da mesma.

Por acaso ainda não a li, mas sou leitor de um artigo mensal que este autor publica numa das revistas do «extremismo» contemporâneo, ou seja, daquela expressão que a racionalidade desconstrutivista quer investir em tudo quanto cheira a civilização ocidental, de fundo judaico-cristão, de livre iniciativa e de gestão capitalista. Pois bem, nos dois últimos números dessa revista, (Le Nouveau Magazine Littéraire ), Gérald Bronner elegeu como «demonologias» contemporâneas a questão da arte e a questão das relações entre inato e adquirido. Afinal, as questões que as festas «históricas» trazem sempre à colação.

A arte contemporânea, no dizer daquele sociólogo, que se concebeu como arte de provocação explícita em relação aos valores da arte clássica, digamos assim, tornou-se detestável, tornou-se uma figura narrativa do que se detesta , precisamente por ser falsa, provo- cadora para além dos limites, por ser adulada pelos seus provocadores, por ser inacessível aos que a não conseguem compreender e, argumento surpreendente, por ser altamente subvencionada com dinheiros públicos, com apoios estatais. Em suma, a arte contemporânea, a tal arte desconstrutivista, abstracta, provocadora, muitas vezes mobilizadora até de outras artes ditas consensuais, como a popular, a religiosa, por exemplo, acaba por causar a rejeição àqueles que deveria ter despertado para outras compreensões ou interpretações do real e do passado e do acumulado histórico.

Por outras palavras, segundo o autor que li, a arte contemporânea não reflecte em sim mesma o preço que custou, custa muito sustentá-la: ela quis ser sintoma de uma decadência que não se concretizou e que tarda em dar sinais de esgotamento, mas acaba ela por ser decadente e por mostrar a sua decadência, a sua datação, acaba ela por ser mistificadora das transgressões que arbitrariamente quis afirmar.
O autor não retira ilações desta «anomalia em que certa arte e certas manifestações artísticas se tornaram, quer pela relação preço-qualidade, quer pela temática, apenas se limita a interrogar se os artistas ou autores que a fazem transgridem eles próprios os limites do que mostram.

Já no artigo sobre o inato e o adquirido, o autor se interroga sobre a necessidade de regresso à génese: o que consideramos inato e o que queremos considerar adquirido, agora neste tempo contemporâneo em que estamos desejosos de que tudo seja como se decidir que o seja, sem olhar a matérias de herança genética ou de herança histórica ou de herança imaginária. A cidade é um território de ideias e as suas festas estão sempre a fazê-la entrar em jogo.

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