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Braga, terça-feira

Quanto valem os avós?

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Voz às Escolas

2014-03-31 às 06h00

Maria da Graça Moura

Marta é uma menina de sorriso fácil, cabeleira farta e olhos meigos! Informou-me que vai deixar a escola porque a mãe vem buscá-la, a ela é à irmã, para viverem em França, país para onde a mãe emigrou há dois anos, quando o pai abandonou a família e partiu para Angola.

Marta diz-me que não quer deixar os avós, com quem vivem, porque a avó é muito amiga delas e chora pelos cantos da casa desde que soube que a filha lhe vinha tirar as netas. Do avô fala com alguma mágoa porque o considera muito severo e intolerante com as mais simples atitudes das netas.

O avô tem 74 anos, mal sabe ler ou escrever e acusa todos os dias a responsabilidade de criar e educar duas meninas adolescentes, queixando-se de já não ter idade para andar atrás delas. Tem medo de tudo e, por isso, controla os horários escolares, os amigos e as escapadelas, rigorosamente. A relação das duas netas com o avô é pouco empática, já da avó, que tem 70 anos e uma genica espantosa, a Marta fala de boca cheia e demonstra um carinho do tamanho do mundo.

Esta conversa foi-se desenrolando quase como um novelo de lã. Puxei por fios mais sensíveis como: saudades da mãe, notícias do pai, relação com a irmã mais nova, aproveitamento escolar, enfim, perguntas que ajudam a perceber melhor o contexto familiar da jovem. Respondeu a tudo de forma um pouco evasiva porque a preocupação da Marta centrava-se na grande questão de não querer abandonar a escola, os amigos, a casa dos avós, a cidade.

Por isso, confrontou-me de imediato, com ar ansioso, se eu podia convencer a mãe a deixá-la ficar cá em Portugal argumentando que em França não conhece ninguém, não tem amigos, não sabe a língua e já sofre com medo de não se adaptar. Os seus olhos vivos e expressivos deixaram escapar duas lágrimas!

Senti-me angustiada, mas lá tive que encher o peito de coragem para lhe pedir que se colocasse no lugar da mãe. A vida dela em França não será fácil, também teve de se adaptar a uma nova cultura, nova língua, nova vida e abandonar as filhas deve ter sido muito difícil. Ainda para mais ter de sobrecarregar os pais, que já não são novos, com a responsabilidade de tomar conta das netas.

Levantou a cabeça e quase a querer desafiar-me, disse-me com a voz enérgica: os meus avós são os meus verdadeiros pais! Tomaram conta de nós desde pequenas e as recordações que tenho da creche, da escola, das férias escolares, é sempre acompanhada da minha avó. As coisas boas e menos boas da minha vida só a minha avó conhece.
Os meus pais nunca tiveram uma vida emocionalmente estável e apesar dos meus avós viverem só da reforma, ajudaram-nos a ultrapassar momentos difíceis, até que cada um foi tratar da sua vida.

Tenho a certeza que a minha avó cai em depressão se ficar sem nós. Por ela e por mim, não quero sair daqui!
Enquanto procurava uma resposta assertiva, vieram-me à memória tantas avós, de tantos meninos e meninas, que tão belas e doces recordações deixam na sua infância: a espera à saída da escola, um bolo acabado de fazer para o lanche, o curativo das mazelas das brincadeiras mal sucedidas, a proteção de algumas chineladas ameaçadas pelos pais e aquele carinho infinito!
A resposta encontrei-a no apelo da Marta que revela uma enorme dívida de gratidão aos avós que, de uma forma ou de outra, ficarão marcados para sempre na sua vida.

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