Correio do Minho

Braga, sábado

Quantos dias negros consome uma noite branca?

Mais uma vez, um novo ano escolar

Escreve quem sabe

2018-09-05 às 06h00

José Hermínio Machado

Segundo Annie Le Brun (Ce qui n’a pas de prix, Éditions Stock, 2018) as condições de alienação do homem contemporâneo terão sido extremadas e refinadamente pioradas pelo desenvolvimento dos sistemas de governação que se conluiaram com os sistemas financeiros a um nível global e se apoderaram de todos os mecanismos de representação dos valores humanos, morais e sociais, manipulando, em iniciativas cada vez mais criativas, os programas de entretenimento, as programações culturais da cidade, os programas de mostra museológica, as exposições de arte, as edições, enfim, transformando toda a produção cultural em algo de vendável, gerador de lucro, aumentador de ganhos, etc. etc. O leitor fica por aqui a saber que de vez em quando, caso não seja portador deste tipo de ideologia, não lhe fará mal a leitura de obras pretensamente denunciadoras dos esquemas da dominação capitalista, agora congeminada com as formas da dominação socialista, ambas visando a alienação do homem comum, do trabalhador, do dependente de recursos do Estado, etc. etc.

Segundo a autora, a emancipação do homem está cada vez mais difícil, mas é cada vez mais necessária, face à velocidade com que os mercados, combinados com os estados, se apoderam dos recursos e promovem a degradação dos ecossistemas, a exploração intensiva dos solos, tomando as pessoas como meros consumidores e considerando-as apenas na dimensão de votantes, tudo lhes prometendo em troca do voto nos momentos eleitorais. À face desta interpretação, a noite branca de Braga, como a de qualquer outro local, mais não é do que uma combinação dos poderes locais e das instâncias de comércio para garantir a cidade como consumidora máxima de bens de recreio ou de entretenimento. Ou seja, os dias de um vulgar cidadão, vistos a esta lupa do discurso pretensamente emancipatório, merecem uma noite branca por ano, duas ou três até, mas à custa de muitos dias negros, e de preferência com a consciência alegre de não se darem conta desta alienação.

E terá sido sempre assim? Não, caro leitor. Como Annie Le Brun explica, já houve tempos e sociedades em que os homens respiravam liberdade e mantinham relações sãs, não alienadas, não dependentes da exploração de uns pelos outros; sociedades tradicionais, organizadas numa base de relações individuais mas também comunitárias, de solidariedade efectiva e em que as criações culturais visavam a beleza, o bem-estar, a harmonia da comunidade e não o lucro ou a acumulação de capital. Prova ainda em vigor deste sonho ou desejo no coração dos homens e no seu imaginário são algumas tribos, algumas sociedades rurais, agro-pastoris, enfim, aquele tipo de sociedade que o folclore vai simbolizando em artefactos, obras de arte, formas de vestir, usos e costumes. Não há como leituras extremas para dialogarmos com mais base de sustentação.

Estas teorias são tão alienantes como as sociedades alienadas que pretendem explicar, misturam o real e o irreal com muita facilidade e não conseguem sair do seu círculo discursivo de combate contra tudo e contra todos, a favor de um paraíso sempre a construir e sempre a adiar. As noites brancas foram concebidas para alienar as pessoas na qualidade de consumidores imparáveis? Tanto como foram pensadas para socializar, promover a festa, usufruir de espectáculos, aproveitar oportunidades, etc. Em tudo, sempre se dirá que têm uns de trabalhar para outros andarem de espinha direita e folgada. Em tudo se dirá que há uma conspiração de interesses financeiros a gerir autarcas, políticos, animadores culturais, em tudo se dirá que as marcas, o tal Trade Mark tentacular, dominam o imaginário de forma subtil e impõem critérios de normatividade despersonalizada. Há coisas que se aliviam melhor com uma bebida, outras com um grito, outras com a farra de grupo, outras com a passeata pelas ruas da cidade. E outras… assim como leu, amigo leitor, com esta conversa de noite em branco.

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